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A mais nova linha de apuração da Operação Compliance Zero, que investiga o rombo bilionário deixado pelo Banco Master, trouxe à tona um labirinto financeiro com epicentro nos Estados Unidos. De acordo com documentos e mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil e confirmados por fontes da Polícia Federal, pelo menos R$ 111 milhões desviados pelo banqueiro Daniel Vorcaro foram parar em empresas de fachada registradas em Delaware, um dos três estados americanos – ao lado de Wyoming e Nevada – que se tornaram verdadeiros “paraisos fiscais” dentro do território norte-americano. Os dados, que constam de relatórios do Coaf e de trocas de mensagens entre os envolvidos, indicam que o dinheiro foi pulverizado em contas bancárias no Texas e aplicado na compra de mansões e obras de arte na Flórida, num intrincado esquema de ocultação patrimonial que a Justiça brasileira tipifica como lavagem de dinheiro, mas que a legislação dos EUA, em muitos casos, sequer alcança como crime.
A descoberta escancara mais uma vez a assimetria entre os sistemas jurídicos dos dois países: o que é crime no Brasil pode ser mera “elusão fiscal” ou “planejamento patrimonial” nos Estados Unidos, onde a abertura de empresas sem identificação do beneficiário final é permitida por lei – algo que, segundo o jornal Washington Post, transformou Delaware em uma “lavanderia tosca” com menos exigências do que o Panamá. O Índice de Percepção da Corrupção de 2025, da Transparência Internacional, reflete essa deterioração: os EUA caíram para a 29ª posição entre 182 países, registrando sua pior nota histórica (64 pontos) e ficando atrás de nações como Uruguai, Lituânia e Barbados.
O caso ganhou novos contornos na última semana, quando o juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, não apenas reconheceu a liquidação do Banco Master no Brasil como também autorizou o liquidante EFB Regimes Especiais de Empresas a aprofundar as buscas por ativos de Vorcaro em solo americano, negando pedidos da defesa para limitar as investigações. Em decisão publicada em 28 de abril de 2026, Grossman rechaçou a alegação dos advogados de que a EFB estava agindo como um “trem desgovernado” que se antecipava à própria liquidação. “O liquidante está autorizado a examinar testemunhas, colher provas ou solicitar a entrega de informações relativas aos ativos, negócios, direitos, obrigações ou passivos dos devedores”, escreveu o magistrado, ao determinar a suspensão automática de qualquer ação contra os bens de Vorcaro nos EUA.
A dupla face da justiça americana fica evidente: enquanto o Judiciário da Flórida colabora ativamente com a recuperação de ativos, o estado de Delaware permanece como um buraco negro regulatório. Investigadores da Polícia Federal apuraram que as empresas usadas por Vorcaro para adquirir imóveis de luxo em Orlando e Miami foram abertas em Delaware, onde a lei não exige a identificação dos “beneficiários finais”. Em alguns casos, a compra foi feita por meio de limited liability companies (LLCs) registradas em nome de laranjas, incluindo o pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, e sua irmã Natália Vorcaro, casada com o pastor Fabiano Zettel – o maior doador individual da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, com R$ 3 milhões.
Entre os ativos localizados pelas autoridades brasileiras e pela equipe de liquidação está uma mansão de US$ 32 milhões (cerca de R$ 170 milhões) em Windermere, na Flórida, adquirida por Henrique e Natália Vorcaro em 2022. O imóvel de seis dormitórios, nove banheiros e 2.200 m² às margens de um lago foi citado em ação movida pela EFB como um dos principais exemplos de ocultação de patrimônio. A defesa de Henrique Vorcaro, capitaneada pelo criminalista Eugênio Pacelli, rebateu: “Há uma explicação simples para essa manobra do liquidante: ele quer ampliar o patrimônio do Master buscando bens de outras pessoas que jamais foram acionistas, gestores ou administradores do banco”.
A articulação do dinheiro, no entanto, não para nos imóveis. Documentos obtidos pelo The Intercept Brasil mostram que R$ 61 milhões dos recursos desviados por Vorcaro foram destinados à produção do filme Dark Horse, cinebiografia da família Bolsonaro. O montante foi canalizado por meio de um fundo offshore sediado no Texas, o Havengate, que tem como agente legal o escritório de Paulo Calixto, advogado de imigração que atende Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Segundo as investigações, os valores superam em muito o custo de qualquer superprodução cinematográfica, o que levanta suspeitas de que parte do dinheiro tenha sido desviado para manter o ex-deputado Eduardo Bolsonaro – que vive nos EUA desde fevereiro de 2025 – ou para financiar a campanha de medidas retaliatórias contra o Brasil, como a Lei Magnitsky e o tarifaço.
Em áudio vazado e divulgado pelo Intercept, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, aparece cobrando Vorcaro pelos pagamentos: “Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso”, diz o senador, em mensagem obtida pela reportagem. Flávio nega que os recursos tenham sido usados para o irmão, afirmando que todos foram aplicados integralmente no filme. Eduardo também rejeita as acusações: “A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca”, escreveu nas redes sociais.
Do ponto de vista jurídico, a rastreabilidade desses recursos esbarra no muro da soberania americana. Para acessar as contas bancárias do Havengate ou quebrar o sigilo das LLCs de Delaware, o Ministério da Justiça brasileiro precisaria acionar o MLAT (Tratado de Assistência Legal Mútua), mecanismo de cooperação bilateral em vigor desde 2001. O ministro Wellington Lima e Silva, no entanto, afirmou que ainda não recebeu nenhuma demanda formal para quebrar sigilos bancários nos EUA. “Qualquer demanda terá que se adaptar a condutas pré-estabelecidas, senão é perseguição”, declarou, ao mesmo tempo em que negocia com a Casa Branca uma ampliação dos acordos de cooperação.
É nesse ponto que emerge o principal paradoxo da apuração: as condutas investigadas no Brasil podem não constituir crime nos Estados Unidos. Enquanto a Lei 9.613/98 brasileira tipifica a lavagem de dinheiro como o ato de ocultar ou dissimular a origem ilícita de recursos, a legislação americana – especialmente nos estados de Delaware, Wyoming e Nevada – sequer exige a identificação do “beneficiário final” das empresas. Na prática, a abertura de uma LLC em Delaware custa apenas US$ 150, com taxa anual de manutenção de US$ 50, e pode ser feita por qualquer pessoa, inclusive com ficha criminal. Como revelou a série Pandora Papers do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), Wyoming chegou a saltar de 4.200 empresas registradas em 2011 para 220 mil em 2020, abrigando desde fraudes na saúde russa até roubos a bancos no Zimbábue.
Diante desse cenário, a fala do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ganha contornos proféticos: em novembro de 2025, ele já alertava que “o crime organizado faz uso de empresas nos Estados Unidos” para lavar dinheiro, citando justamente a facilidade de abertura de pessoas jurídicas sem controle de sócios. A diferença é que, nos EUA, esse mecanismo não é considerado ilegal – é uma característica estrutural do sistema, uma feature, não um bug. O Project Syndicate foi mais duro: “Donald Trump está rapidamente transformando os Estados Unidos no maior paraíso fiscal da história”, publicou em abril de 2025.
O impacto internacional dessa blindagem é mensurável. O Índice de Percepção da Corrupção de 2025, divulgado em fevereiro de 2026 pela Transparência Internacional, mostrou que os EUA atingiram sua pior posição desde 2012, ocupando o 29º lugar com 64 pontos. O país ficou atrás de Uruguai (23º), Lituânia (26º) e Barbados (27º), e empatou com as Bahamas. A ONG alemã destacou que “decisões políticas dos Estados Unidos, incluindo o congelamento de leis anticorrupção e cortes na ajuda à sociedade civil, têm um impacto negativo à escala global”. O relatório cita ainda a forte queda na aplicação da Lei sobre Práticas de Corrupção no Estrangeiro (FCPA), que proíbe empresas americanas de pagar propina fora do país.
No front doméstico, a investigação do caso Vorcaro reviveu um velho trauma da política brasileira: o vazamento seletivo de informações por agentes públicos. Assim como ocorreu na Operação Lava-Jato, quando conversas do Telegram entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores foram vazadas para o The Intercept em 2019 – no episódio conhecido como Vaza Jato –, fontes da Polícia Federal teriam novamente repassado documentos sigilosos ao mesmo veículo. As reportagens do Intercept sobre os áudios de Flávio Bolsonaro e as planilhas de repasses de Vorcaro vieram a público semanas antes de os autos serem oficialmente liberados, sugerindo que investigadores teriam entregue as provas diretamente a jornalistas.
O paralelo com a Lava-Jato é inevitável. Em 2019, o vazamento das mensagens entre Moro e Deltan Dallagnol colocou em xeque a imparcialidade do juiz e abriu uma brecha para questionar a legalidade de delações premiadas e condenações. À época, o The Intercept publicou reportagens mostrando que Moro cedeu informação privilegiada à acusação, orientou a promotoria e sugeriu mudanças nas fases da operação. Embora a defesa de Moro tenha questionado a autenticidade das mensagens – o hacker responsável pela invasão, Walter Delgatti, foi preso –, o episódio abalou a credibilidade da força-tarefa de Curitiba e contribuiu para a anulação de condenações pelo Supremo Tribunal Federal.
Desta vez, o alvo não é Lula, mas a família Bolsonaro. Em menos de três semanas, o Intercept publicou uma série de reportagens com áudios inéditos, contratos e extratos bancários que ligam Flávio e Eduardo Bolsonaro ao esquema Vorcaro. Em 23 de maio de 2026, o site estampou a manchete: “O preço de Flávio 2026: Como os novos escândalos do senador assombram a direita”, listando desde repasses a suspeitos do assassinato de Marielle Franco até esquemas bilionários de sonegação fiscal. O timing das revelações, a poucos meses das eleições presidenciais, alimenta a tese de que a PF estaria atuando como “tropa de choque antibolsonarista” – algo que os investigadores negam, mas que encontra eco na própria história recente do país com o "antipetismo" difundido, principalmente, pela imprensa.
Não à toa, deputados do PT, PSOL e PCdoB já anunciaram que vão protocolar denúncia na Polícia Federal, requerimento na Receita e pedido de CPI para investigar a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. “Ninguém doa o valor de R$ 134 milhões sem esperar algo em troca”, afirmou o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC). Paralelamente, a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro por coação no curso de processo, por ter articulado, dos EUA, sanções contra o Brasil para influenciar o julgamento do pai.
Enquanto o imbróglio judicial se arrasta, os milhões de Vorcaro seguem protegidos pelo sigilo corporativo de Delaware. A PF já mapeou transferências para galerias de arte em Nova York (Christie’s, Sotheby’s, Gagosian) e para incorporadoras na Flórida, mas esbarra na falta de cooperação ágil dos EUA. Em janeiro de 2026, o juiz Grossman até bloqueou todos os bens ligados ao Banco Master no país, mas a medida não atinge as contas pessoais de familiares ou as LLCs abertas em nome de laranjas. A menos que o governo Lula consiga ampliar o MLAT – um dos temas levados pelo ministro Lima e Silva à Casa Branca –, o dinheiro pode ficar para sempre no limbo jurídico, incapaz de ser repatriado ou criminalizado.
O caso expõe, em sua plenitude, a hipocrisia do sistema financeiro global: os mesmos Estados Unidos que impõem sanções a paraísos fiscais caribenhos abrigam em seu próprio território a mais moderna e barata estrutura de ocultação de capitais. Para o Brasil, a lição é amarga. Enquanto a Lava-Jato prendeu empreiteiros e políticos brasileiros com base em delações que muitas vezes dependiam de informações de contas na Suíça, o caso Vorcaro mostra que o novo paraíso fiscal fica a apenas algumas horas de voo, em Delaware, Wyoming e Nevada – e que os bilhões desviados podem jamais retornar, legal ou fisicamente, ao país de origem.
Como sentenciou o próprio juiz Grossman ao negar os recursos de Vorcaro: “O liquidante terá autoridade para agir de forma independente para cumprir quaisquer dos deveres e poderes concedidos por esta Ordem”. Resta saber se essa autoridade conseguirá atravessar as camadas de sigilo erguidas pelos estados americanos – e se o Brasil terá paciência e inteligência diplomática para convencer Washington de que, desta vez, a briga não é política, mas contra o crime organizado transnacional. A história, no entanto, sugere que, quando se trata de dinheiro sujo, o xerife do mundo prefere olhar para o lado.
Com informações de The Intercept Brasil, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, Valor Econômico, O Globo, Jovem Pan, Revista Fórum, Poder360, CNN Brasil, Expresso, Agência Brasil, El País, Wikipedia (Vaza Jato), Transparência Internacional, Project Syndicate, ICIJ (Pandora Papers), Washington Post, Bloomberg ■