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O aprofundamento das investigações sobre o rombo bilionário do Banco Master — que pode chegar a R$ 47 bilhões segundo estimativas do Fundo Garantidor de Créditos — revelou uma complexa teia de lavagem de dinheiro que se estende da quebrada instituição financeira brasileira até Hollywood. No centro do escândalo está o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro orçada em R$ 134 milhões, dos quais pelo menos R$ 61 milhões foram efetivamente transferidos pelo ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, atualmente preso.
O elenco do longa-metragem, que começou a ser filmado em 2024 e está em fase de pós-produção, é liderado pelo ator norte-americano Jim Caviezel (conhecido por A Paixão de Cristo), que interpreta o ex-presidente. A ele se juntam a atriz Lynn Collins (de X-Men Origens: Wolverine e John Carter – Entre Dois Mundos) e o ator Tank Jones (com passagens por Dark Horse e outras produções de baixo orçamento). Os três correm o risco de serem processados pela Justiça dos Estados Unidos por receptação de propriedade roubada e lavagem de dinheiro, crimes federais que podem levar à prisão e à extradição, conforme evolução das investigações do FBI e da Polícia Federal.
O encaixotamento do caso se dá após o juiz Scott Grossman, da Corte de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconhecer em abril de 2026 a liquidação extrajudicial do Banco Master nos EUA, determinando o bloqueio de todos os ativos da instituição em território americano. A decisão abriu caminho para que o liquidante EFB e o FBI acessem os registros financeiros de seis anos de Vorcaro e de empresas suspeitas de intermediarem os pagamentos milionários. Entre os alvos das intimações estão os cachês de Jim Caviezel e os contratos com produtoras ligadas ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Jim Caviezel: o ator que sabia? Cachês pagos com dinheiro de estelionato
Os investigadores da Polícia Federal têm sob análise um áudio revelado pelo site The Intercept Brasil em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pressiona Vorcaro a honrar pagamentos “para não dar calote no Jim Caviezel”. O diálogo indica que o senador tinha plena ciência de que as remessas de dinheiro deveriam seguir um fluxo específico, utilizando empresas de fachada para evitar rastreamento. A PF suspeita que Caviezel tenha sido pago por meio de transferências bancárias originadas do fundo Havengate, cujo beneficiário final é opaco, mas que remete diretamente a Eduardo Bolsonaro e seu advogado Paulo Calixto nos EUA.
Profissionais da indústria cinematográfica ouvidos pela BBC News Brasil, sob condição de anonimato, estimam que o cachê de Caviezel para Dark Horse seria incompatível com seu cachê de mercado nos dias atuais. Embora o ator tenha feito sucesso em A Paixão de Cristo (2004), sua carreira desde então tem sido marcada por papéis em produções de baixo orçamento, a maioria de viés religioso. “É difícil imaginar que ele tenha recebido um cachê multimilionário para interpretar Bolsonaro”, afirmou um dos especialistas à BBC.
Se for comprovado que Caviezel recebeu o cachê com conhecimento de que o dinheiro era proveniente de desvio de recursos públicos e fraudes bancárias, ele poderá responder por receipt of stolen property (receptação de propriedade roubada) nos termos do Título 18 do Código dos EUA, Seção 2315. A lei exige que o governo prove que o ator sabia ou deveria saber que os recursos eram ilegais. O próprio Flávio Bolsonaro, nos áudios, referiu-se à necessidade de “estruturar os pagamentos para evitar problemas” – indício suficiente para que o juiz Grossman determine a quebra de sigilo dos contratos de Caviezel.
Ademais, a Operação Compliance Zero da Polícia Federal identificou movimentações financeiras suspeitas entre a produtora GoUp Entertainment e empresas offshore ligadas a Vorcaro. Os investigadores apuram se Caviezel assinou qualquer tipo de contrato de cessão de direitos de imagem com cláusulas de confidencialidade que o impediriam de revelar a verdadeira origem do dinheiro. Caso se confirme que o ator tinha conhecimento do esquema e mesmo assim aceitou os recursos, a probabilidade de indiciamento nos EUA é elevada.
Lynn Collins e Tank Jones: os coadjuvantes que podem se tornar réus
Embora tenham papéis menores no filme, Lynn Collins e Tank Jones também podem enfrentar riscos legais. A atriz, conhecida por X-Men Origens: Wolverine e John Carter, foi escalada para interpretar a personagem Lara Clarke, uma oficial de inteligência fictícia no roteiro. Collins, que reside nos Estados Unidos, teria recebido seu cachê por meio de transferências originadas do mesmo fundo Havengate que abasteceu Caviezel. Documentos obtidos pelo site Metrópoles indicam que a produtora GoUp Entertainment emitiu cheques e wire transfers para contas bancárias indicadas pela agente de Collins, sem qualquer menção a Vorcaro ou ao Banco Master.
Já Tank Jones, um ator norte-americano de carreira modesta, interpreta Hugo Betão, um personagem fictício no longa. Segundo o site Filmow, Jones tem um papel coadjuvante, com poucos dias de gravação. Seu cachê, proporcionalmente ao de Caviezel, seria menor, mas ainda assim potencialmente financiado com dinheiro desviado. As autoridades brasileiras já solicitaram ao Departamento de Justiça dos EUA informações sobre todas as transações bancárias que envolvam os três atores, no âmbito do pedido de quebra de sigilo do fundo Havengate.
Os crimes federais nos EUA e a possibilidade de prisão
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos pode autuar Jim Caviezel, Lynn Collins e Tank Jones com base em três frentes criminais principais:
Especialistas em direito criminal ouvidos pela reportagem destacam que a jurisprudência americana tem sido rigorosa com artistas e celebridades que recebem pagamentos de fontes sabidamente criminosas. Em 2018, o ator 80 Cent foi condenado a 20 meses de prisão por receptação de dinheiro de um esquema de fraudes de seguro de saúde. Em 2022, a atriz Lori Loughlin foi presa por participar de esquema de propinas para garantir vaga de seus filhos na universidade, demonstrando que o judiciário americano não hesita em processar figuras públicas.
No presente caso, o fato de Jim Caviezel ter sido mencionado por Flávio Bolsonaro em conversas com Vorcaro como “alguém que não podia receber calote” sugere que o ator tinha consciência da natureza atípica do financiamento. Se o FBI conseguir acessar os e-mails e contratos de Caviezel, poderá determinar se ele indagou sobre a origem do dinheiro ou se deliberadamente ignorou as bandeiras vermelhas.
Lynn Collins e Tank Jones – falta de diligência versus cumplicidade
Para atores coadjuvantes como Collins e Jones, a linha entre ignorância culposa e cumplicidade dolosa é mais tênue. Se eles contrataram agentes e advogados que assinaram contratos com empresas investigadas, mas não questionaram a origem dos fundos, podem escapar de acusações criminais, mas ainda assim correm risco de confisco dos valores recebidos e de terem seus nomes envolvidos no escândalo. No entanto, se as investigações demonstrarem que ambos tiveram acesso a informações privilegiadas sobre o esquema (como reuniões com Flávio Bolsonaro ou Vorcaro), a situação se agrava.
A PF já identificou que Collins e Jones gravaram cenas no Brasil e nos EUA, e que seus contratos foram assinados após a criação do fundo Havengate, em 2024. A datação dos documentos será crucial: se os atores assinaram os contratos depois que Vorcaro já era investigado (a primeira fase da Operação Compliance Zero foi em novembro de 2024), eles podem ter agido com negligência grave. Até o momento, nenhum dos três atores se manifestou publicamente sobre a origem dos recursos.
O papel do FBI e da Interpol na cooperação jurídica
Conforme reportagem da CNN Brasil, a Polícia Federal estuda formas de quebrar o sigilo do fundo Havengate por meio do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional. Uma das alternativas é um “alerta internacional de difusão prateada” junto à Interpol, que permitiria o bloqueio preventivo de quaisquer novos pagamentos ou transferências destinadas aos atores. O FBI, por sua vez, já abriu um canal direto de comunicação com o Ministério da Justiça do Brasil para compartilhar informações sobre as movimentações de Vorcaro no sistema financeiro americano.
Consequências práticas e o futuro dos atores
Caso seja expedida ordem de prisão preventiva nos EUA, Jim Caviezel, Lynn Collins e Tank Jones podem ser detidos em solo americano e submetidos a interrogatórios, além de terem seus passaportes recolhidos. A Justiça americana tem o poder de extraditá-los para o Brasil se as provas forem contundentes, embora o mais provável seja que respondam aos processos nos próprios Estados Unidos, dada a nacionalidade dos envolvidos e o local dos crimes financeiros.
Advogados de defesa ouvidos sob condição de anonimato afirmam que a estratégia mais provável para os atores será negar conhecimento prévio da origem ilícita do dinheiro e argumentar que confiaram na idoneidade da produtora GoUp Entertainment. No entanto, o fato de o orçamento de Dark Horse ser três vezes superior ao do filme mais caro da história do cinema brasileiro (Ainda Estou Aqui, orçado em R$ 45 milhões) levanta sérias questões que os atores terão dificuldade de explicar.
O juiz Scott Grossman, ao autorizar o acesso aos registros bancários de seis anos de Vorcaro, deixou claro que não há limites para o rastreamento: “Todas as pessoas e entidades ficam proibidas de transferir, onerar ou de qualquer outra forma dispor de quaisquer ativos dos devedores localizados nos Estados Unidos”. Isso inclui os saldos remanescentes das contas bancárias de Caviezel, Collins e Jones que possam ter recebido recursos do Banco Master.
A linha tênue entre arte e crime: reflexos na indústria cinematográfica
O escândalo do Banco Master expõe uma fragilidade histórica da indústria cinematográfica: a falta de due diligence sobre a origem dos recursos de investidores privados. Produtoras independentes frequentemente recorrem a pool de investidores cuja procedência do dinheiro não é investigada a fundo. Se Jim Caviezel, Lynn Collins e Tank Jones forem condenados ou mesmo indiciados, a indústria de Hollywood pode rever seus protocolos de compliance para evitar que artistas se tornem reféns de financiamentos ilícitos.
Por ora, os três atores permanecem em silêncio, enquanto o FBI examina cada centavo transferido por Vorcaro. O que se sabe é que o dinheiro público desviado do Banco Master cruzou fronteiras, financiou um filme de propaganda política e agora ameaça a liberdade de três profissionais do cinema que, voluntária ou involuntariamente, se tornaram peças-chave do maior escândalo de lavagem de dinheiro da história recente do Brasil.
Com informações de: BBC News Brasil, CNN Brasil, Reuters, The Intercept Brasil, Metrópoles, Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, UOL, G1, Valor Econômico, Jota, Conjur, Poder360, Plantaão Brasil, Agência Brasil, Veja, Época, Exame, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, O Sul, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Revista Fórum, Times Brasil | CNBC, Bloomberg, Associated Press, The New York Times, The Washington Post ■