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Há um silêncio tenso na sala de cirurgia. O médico ergue uma pinça e, sob o olhar do paciente, segura uma pequena peça óssea. “Mais uma vértebra para a coleção”, sussurra o anestesista. Não, não é o roteiro de um remake de “Doutor House” ambientado na Grande Tijuca. É o cotidiano de Neymar Junior, o atleta que transformou a coluna vertebral em um item de colecionador tão cobiçado quanto figurinhas raras do álbum da Copa.
A opinião pública brasileira, como um pêndulo quebrado, oscila entre dois extremos dignos de um drama grego escrito por Millôr Fernandes. De um lado, os fiéis da “Igreja da Última Chance do Futebol Arte” — aqueles que juram de pés juntos: “Não há jogador com o mesmo talento que Neymar”. E, comungando da mesma hóstia, exibem lances do Santos, do Barcelona e aquela meia-volta no Mundial de 2022 que quase, quase, fez a Coreia do Sul pedir música do Silvio Brito. Do outro lado, os realistas reumáticos que apontam para o calendário, para o Departamento Médico e para a estatística indigesta: o homem já passou mais tempo deitado em macas do que em campo em Copas desde 2018.
Nesse ínterim, uma notícia bombástica vaza do centro de treinamento da Seleção (ou do vestiário do Real Madrid, depende da sua fé). O técnico Carlo Ancelotti, num ato de misericórdia ou de puro tédio europeu, decide dar “uma última chance” ao lendário Joseph Climber. Quem? Exato. Joseph Climber, um suposto “faz-tudo” do futebol de várzea sueco, cuja função oficial — espantem-se — é a de peso de papel. Nas entrelinhas do contrato, lê-se: “Cláusula 47, parágrafo 3º – o atleta deverá segurar as pranchas táticas em dias de ventania no CT”. Ancelotti, coçando a sobrancelha de forma enigmática, declarou em um italiano macarrônico: “Se Neymar machucar a vértebra psi, entra Climber. Ele não corre, mas também não cai”. A torcida, claro, já produziu memes com o rosto de Joseph colado na estátua de Anhangabaú.
E não para por aí. A memória do torcedor é uma peneira, e alguém resolveu cutucar o vespeiro de 1998 e 2002. Surge então a sentença quase herética: “Nem Romário teve a mesma sorte em 98 e em um de seus auges em 2002”. De fato, o Baixinho — que chutava melhor do que muito ditador escreve discurso — ficou de fora da final de 98 por um “problema muscular não especificado” que a CBF tratou como estado de sítio. E em 2002, mesmo no auge dos 36 anos (com aquele riso de quem acabou de furtar uma Ferrari), Romário foi cortado por birra tática. Sorte? Neymar, por outro lado, teve a sorte de lesionar o pé em 2014 (e ver o 7 a 1 de camarote), o joelho em 2018 (jogou? não jogou? ficou a dúvida) e o tornozelo em 2022. Resumo: Romário não teve a sorte de ser poupado dos vexames — Neymar teve a “sorte” de assistir aos vexames da TV em um colchão ortopédico. O futebol é uma caixinha de surpresas, muitas delas compradas na loja de equipamentos hospitalares.
Agora, preparem as estatísticas para o salto quântico. De acordo com a matemática de botequim, Neymar se igualará a Ronaldo Fenômeno e a Pelé com quatro Copas disputadas. Olhem os números:
Sim, meus amigos, o empate é meramente numérico. Como igualar um voo de Pelé e um rolo compressor de Ronaldo com uma lista de faltas sofridas e ressonâncias magnéticas? Mas o critério existe: “quantidade de mundiais nos quais você entrou em campo mancando ou chorando”. Nesse ranking, Neymar é insuperável — uma espécie de Pelé do departamento médico.
E então, paira no ar aquela pergunta que se repete como um mantra nas redes sociais após cada queda digna de Oscar: “Qual será a próxima vértebra?” O povo já criou um bolão. As opções são:
Casas de aposta no Paraguai já aceitam bets em dinheiro vivo e empréstimo de joias. Enquanto isso, Neymar posta stories jogando CS:GO com a perna engessada e uma legenda filosófica: “Deus no controle, a coluna que se cuide.”
A parte mais delirante — ou profética — da discussão é o final do conto. O torcedor brasileiro, esse ser resiliente que come pão com ovo enquanto sonha com churrasco, declarou por meio de oráculos de WhatsApp: “De qualquer forma, o hexa do Brasil virá, com campeonato ou eliminação seguida em mundiais.”
Tradução simultânea para os leitores apressados: o hexa vem agora em 2026, ou em 2030, ou em 2100 — tanto faz, o que importa é a fé inabalável de que, após 24 anos de espera, a taça voltará, ainda que seja em uma Copa onde Neymar esteja jogando de muletas e Joseph Climber seja o capitão. E se não vier? A frase permanece verdadeira porque “virá” é tempo verbal do futuro, e o futuro é infinito. Como diria um sábio: “O hexa é como o Horizonte de Eventos: você nunca chega, mas acredita que existe.”
Portanto, caro leitor, o conto de fadas de Neymar não tem príncipe encantado, nem beijo no sapo. Tem um atleta genial e frágil, uma nação dividida entre o encanto e o resmungo, um peso de papel chamado Climber que pode virar xodó e a certeza metafísica do hexa. Ou não. No fundo, é só futebol — aquela invenção maravilhosa que nos faz discutir vértebras como se fossem camisas 10.
Com informações de GloboEsporte.com, UOL Esporte, ESPN Brasil, Yahoo Esportes, Trivela, Placar, The Athletic, Soccer Twitter e do Boletim Médico da Santa Casa de Misericórdia do Futebol ■