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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve reunido por cerca de três horas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em sua primeira visita oficial à Casa Branca durante a gestão trumpista. Os dois líderes se encontraram na tarde desta quinta-feira (7) em Washington, em um encontro que foi marcado por conversas a portas fechadas, um almoço e o cancelamento da coletiva de imprensa conjunta que estava prevista para ocorrer no Salão Oval.
A reunião, classificada como uma "visita de trabalho" em formato menos formal do que uma bilateral tradicional, teve como objetivo principal destravar negociações comerciais e estratégicas entre os dois países. Após o encontro, Lula concedeu entrevista coletiva na Embaixada do Brasil em Washington, onde demonstrou otimismo e classificou a relação com o presidente americano como uma espécie de "amor à primeira vista".
Agenda e Cancelamento da Coletiva
Lula chegou à Casa Branca por volta de 12h20 (horário de Brasília) e foi recebido por Trump. O cronograma inicial previa uma reunião de 45 minutos seguida de uma aparição conjunta diante das câmeras no Salão Oval. No entanto, a conversa foi alongada e os presidentes seguiram diretamente para um almoço, sem falar com os jornalistas. A entrevista coletiva foi cancelada, e o encontro todo durou quase três horas.
A ausência da tradicional coletiva causou surpresa entre a imprensa. A BBC News descreveu o dia como um "jogo de espera" para os jornalistas, que aguardaram por três horas sem orientações até descobrirem que Lula estava deixando o local. A BBC também afirmou que o cancelamento foi "uma surpresa e tanto" e um "choque para a imprensa".
Trump se manifestou sobre o encontro em sua rede social Truth Social, chamando Lula de "dinâmico" e afirmando que a reunião foi "muito boa" e "muito produtiva". "Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas", escreveu o presidente americano.
O que foi discutido: ponto a ponto
Tarifas e Grupo de Trabalho
As tarifas americanas sobre produtos brasileiros foram um dos principais pontos de atrito e também de avanço nas negociações. Lula anunciou a criação de um Grupo de Trabalho bilateral com prazo de 30 dias para negociar o fim das tarifas. O presidente brasileiro sugeriu que as equipes econômicas dos dois países se reúnam e apresentem uma proposta para que os líderes possam "bater o martelo". "Estou muito otimista. Tem uma divergência entre eles e nós, propus termos 30 dias para resolvermos o problema", declarou Lula. Atualmente, a maioria dos itens exportados pelo Brasil aos EUA ainda recebe cobranças extras de pelo menos 10%, com setores como aço e alumínio enfrentando tarifas de 15%. O governo brasileiro também ressaltou a necessidade de concluir uma investigação da Seção 301 aberta pelo governo Trump, que pode resultar em novas sanções.
Terras Raras e Minerais Críticos
O Brasil concentra a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, e o tema foi central na agenda. Lula afirmou que apresentou a Trump o marco legal dos minerais críticos aprovado pela Câmara dos Deputados, que cria regras para a mineração, limita a exportação de materiais brutos e dá ao governo mecanismos de controle sobre projetos estratégicos. O presidente brasileiro deixou claro que o Brasil está aberto a parcerias internacionais, mas condicionou qualquer avanço à preservação da soberania nacional e à garantia de transferência de tecnologia. "Queremos compartilhar nosso potencial com quem queira fazer investimentos no Brasil. Não temos preferência. Queremos compartilhar com empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas", disse Lula. O presidente também reforçou que as terras raras são uma "questão de soberania nacional".
Guerras e Política Internacional
As diferenças de visão entre os dois líderes sobre conflitos globais foram evidentes, mas Lula afirmou que evitou adotar um tom de confronto. O presidente brasileiro declarou que não espera mudanças na postura de Trump em relação a guerras após uma única reunião. "Trump não vai mudar o jeito dele de ser por causa de uma reunião de três horas comigo", disse Lula. "Conversar é muito mais barato, mais eficaz. Não tem vítima, não tem destruição de casa, não tem morte de criança." Lula também criticou os ataques de Israel e EUA ao Irã, defendeu o diálogo internacional e sugeriu uma reforma no Conselho de Segurança da ONU. Segundo Lula, Trump considera que as questões do Irã e da Venezuela estão resolvidas.
Copa do Mundo e o "Conselho" a Trump
Em um dos momentos mais descontraídos do encontro, Lula brincou com Trump sobre a Copa do Mundo de 2026, que será sediada em parte pelos Estados Unidos. O presidente brasileiro contou que Trump perguntou sobre a Seleção Brasileira, e ele respondeu em tom de brincadeira: "Eu espero que você não venha, sabe, anular o visto dos jogadores brasileiros para a seleção. Por favor, não faça isso porque nós vamos vir aqui para ganhar a Copa do Mundo". Lula afirmou que Trump riu da situação. Além disso, o presidente brasileiro aconselhou o colega americano a sorrir mais. "Eu sempre acho que a fotografia vale muito. E vocês perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia. E eu fiz questão de dizer para ele rir", declarou Lula. "Trump rindo é melhor do que de cara feia", afirmou o presidente brasileiro.
Combate ao Crime Organizado
Lula afirmou que a reunião não abordou a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como o Comando Vermelho e o PCC como grupos terroristas. No entanto, destacou avanços no diálogo sobre cooperação em segurança pública e defendeu a criação de um grupo de trabalho com representantes do Brasil, EUA e demais países do continente americano. O presidente também convidou os Estados Unidos a integrarem o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus.
Investimentos e Infraestrutura
Lula reclamou da perda de protagonismo dos Estados Unidos na América Latina e disse que empresas americanas deixaram de disputar grandes projetos brasileiros, espaço ocupado pela China nos últimos anos. O presidente afirmou que quer ver os americanos voltando a investir no Brasil, especialmente em áreas como minerais críticos, data centers e infraestrutura. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que saiu otimista do encontro e destacou o potencial brasileiro para atrair capital estrangeiro, especialmente em minerais críticos e terras raras. O ministro também ressaltou que Lula defendeu o multilateralismo e o fortalecimento de organismos internacionais.
Reação de Lula: "Amor à primeira vista"
Em sua coletiva na Embaixada do Brasil, Lula demonstrou grande satisfação com o resultado do encontro e fez uma declaração que repercutiu amplamente: "A nossa relação é muito boa, mas muito boa. Eu diria uma relação que pouca gente acreditava que pudesse acontecer com tanta rapidez. Sabe aquela história de amor à primeira vista, aquele negócio da química? É isso que aconteceu", declarou o presidente brasileiro. "Foi amor à primeira vista", resumiu Lula.
O presidente também disse que o encontro foi um "passo importante" para a consolidação da relação democrática histórica entre Brasil e EUA e que saiu "muito satisfeito" da reunião. "Saio muito satisfeito da reunião, acho que foi importante para o Brasil e para os EUA", afirmou.
Repercussão da Imprensa Internacional
O encontro entre Lula e Trump foi amplamente repercutido pelos principais veículos de comunicação do mundo, que destacaram tanto a "trégua frágil" entre os dois líderes quanto os ruídos provocados pelo cancelamento da coletiva no Salão Oval.
Análise e Desdobramentos
O encontro desta quinta-feira foi o terceiro entre Lula e Trump desde que o republicano voltou ao poder em 2025. O primeiro ocorreu em setembro daquele ano, durante a Assembleia-Geral da ONU, e o segundo em outubro, na Malásia. A reunião na Casa Branca foi vista como um passo importante para normalizar as relações comerciais e geopolíticas entre Brasil e EUA.
Especialistas apontam que Trump tem interesse em usar o encontro para mostrar uma imagem de prestígio em meio à contestação da guerra contra o Irã, além de aprofundar negociações sobre minerais estratégicos e barateamento da carne bovina. Já o governo brasileiro buscava a derrubada de tarifas, o encerramento de investigações comerciais e a manutenção de um canal de comunicação direto com Trump.
Após o encontro, Lula e Trump concordaram que novas rodadas de negociação entre representantes dos dois países serão realizadas nos próximos meses para discutir pontos-chave. O Grupo de Trabalho para negociação de tarifas já tem um prazo de 30 dias para apresentar uma proposta.
Com informações de BBC News Brasil, G1, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, Estadão, O Tempo, Congresso em Foco, CartaCapital, Jornal do Comércio, ND Mais, Estado de Minas, SBT News, Jornal O Sul, The New York Times, Reuters, Al Jazeera, La Nación ■