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Trump além do atentado: uma síntese crítica dos fatores motivacionais
Imigração com força letal, sequestro de presidente estrangeiro, sanções ao TPI, pacto com Israel, tarifaço inflacionário, retórica misógina, contratação de extremistas e corrida por terras raras compõem o caldo que pode ter levado ao segundo atentado contra Trump em menos de dois anos
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■   Bernardo Cahue, 26/04/2026

O segundo atentado contra o presidente Donald Trump em menos de 24 meses — ocorrido no último sábado (25), durante o Jantar de Correspondentes da Casa Branca, no Washington Hilton — reacendeu o debate não apenas sobre os protocolos de segurança, mas sobre o ambiente político polarizado que cerca a administração Trump. Embora as investigações ainda não tenham apontado uma motivação conclusiva para o ataque, analistas e veículos de imprensa apontam que o governo Trump construiu, desde seu retorno em janeiro de 2025, uma pauta de governo capaz de gerar reações extremas de diferentes setores da sociedade. A seguir, uma análise aprofundada dos pilares desse governo — que vão da violência migratória à tentativa de subverter a ordem financeira global — e como cada um deles pode ter contribuído para o clima de radicalização que resultou no atentado.

1. Políticas de imigração duras com uso de violência letal e avanço do ICE

Desde o primeiro dia de seu segundo mandato, Trump transformou a repressão à imigração no carro-chefe de sua agenda. O governo implementou a política migratória mais rigorosa da história recente dos EUA, o que levou a uma queda drástica na travessia ilegal de fronteiras, mas também a um aumento vertiginoso do número de prisões em cidades americanas. Em fevereiro de 2026, o número de pessoas detidas pelo ICE chegou a cerca de 68 mil — um aumento de cerca de 75% desde que Trump assumiu o cargo. Dados do Departamento de Segurança Interna (DHS) indicam que quase 3 milhões de imigrantes irregulares deixaram os EUA no primeiro ano do novo mandato, sendo que o próprio governo comemora números recordes de deportação.

O custo humano, no entanto, tem sido alto. Reportagens do Globo e da BBC mostram que mais imigrantes estão morrendo sob custódia do ICE e que agentes federais já mataram dois manifestantes a tiros nas ruas de Minneapolis. A violência nas operações expôs falhas no recrutamento e na tática do ICE. Em fevereiro de 2026, o governo ampliou a autoridade da agência para deter refugiados legais que aguardam um green card — uma medida que, segundo grupos de defesa, “quebra a confiança” de pessoas que fugiram da perseguição e foram acolhidas pelos EUA.

2. Incentivo e promoção de guerras externas: o sequestro de Maduro e o apoio incondicional a Israel

Em que pese o discurso “América em Primeiro Lugar”, a administração Trump aprofundou a política de intervenção e mudança de regimes estrangeiros. O caso mais emblemático foi a operação militar de janeiro de 2026 na Venezuela, quando forças americanas invadiram Caracas e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa. O governo Trump evitou usar a expressão “mudança de regime” publicamente, mas documentos vazados e reportagens do Politico confirmam que a Casa Branca havia dado a Maduro um ultimato para deixar o país antes de desencadear a invasão. A operação contou com mais de 15 mil soldados e uma dúzia de navios de guerra na região.

Ao mesmo tempo, Trump consolidou sua aliança com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e endossou abertamente a continuidade da guerra contra a Faixa de Gaza. Entre 7 de outubro de 2023 e julho de 2025, o Ministério da Saúde de Gaza registrou pelo menos 58 mil palestinos mortos e mais de 138 mil feridos. Apesar da catástrofe humanitária, Trump apresentou um plano de 20 pontos para o enclave que, segundo especialistas, é “unilateral e favorável a Israel”, descartando a atuação da Autoridade Palestina no pós-guerra e alinhando-se aos interesses israelenses de segurança. Em fevereiro de 2025, Trump declarou em coletiva ao lado de Netanyahu que os EUA deveriam “assumir a posse” da Faixa de Gaza e deslocar permanentemente sua população para países como Jordânia e Egito.

3. Parceria com a violência de Israel e ataque ao Tribunal Penal Internacional

Para blindar Israel de responsabilização internacional, Trump impôs sanções ao Tribunal Penal Internacional (TPI) em fevereiro de 2025, logo após a corte abrir uma investigação sobre supostos crimes de guerra de Israel em Gaza. Em dezembro de 2025, novas sanções foram aplicadas a dois juízes do TPI que rejeitaram contestações israelenses à investigação. Até o final de 2025, 11 funcionários de alto escalão do tribunal já haviam sido sancionados pelo governo americano. O TPI classificou as sanções como “um ataque flagrante à independência de uma instituição judicial imparcial”.

4. Taxação desenfreada e agravo da inflação interna

A política tarifária de Trump causou danos significativos à economia americana e global. Em abril de 2025, o chamado “Liberation Day” impôs tarifa mínima de 10% sobre milhares de produtos estrangeiros, elevando a taxa efetiva média de importação dos EUA de 2,5% para cerca de 10% — o nível mais alto em décadas. A guerra comercial com a China elevou as tarifas a níveis de três dígitos e interrompeu quase completamente o comércio bilateral por várias semanas. Em relação ao Brasil, Trump ameaçou impor tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, incluindo itens da pauta exportadora como café, carne bovina e suco de laranja.

Os impactos internos foram imediatos. A inflação acelerou em junho de 2025, com o índice de preços ao consumidor (CPI) subindo 2,7% na comparação anual, a maior alta desde fevereiro. Produtos expostos às tarifas — como eletrodomésticos (alta de 1,9% em junho), móveis (1%) e roupas (0,4%) — pressionaram diretamente o bolso do consumidor americano.

5. Discursos misóginos — assessor de Trump chama brasileiras de “raça maldita”

No final de abril de 2026, um assessor especial de Trump, Paolo Zampolli, concedeu entrevista em que chamou as mulheres brasileiras de “raça maldita”. A declaração misógina e desumanizante foi repudiada veementemente pelo Ministério das Mulheres do Brasil, que classificou as falas como discurso de ódio. Zampolli, que é italiano, também é acusado de abuso sexual e violência doméstica por sua ex-esposa Amanda Ungaro. O episódio escancarou a continuidade de uma retórica de baixo calão e de ataques sistemáticos ao gênero feminino dentro do entorno presidencial.

6. Contratação de militantes neonazistas e Proud Boys no ICE

O Departamento de Segurança Interna (DHS) dos EUA tem utilizado propaganda de recrutamento para o ICE que ecoa imagens neonazistas e da extrema direita. Relatórios do Yahoo News e do Talking Points Memo mostram que o DHS publicou vídeos e imagens com símbolos considerados de ódio pela Liga Antidifamação (ADL), como o “Moon Man”, e trilhas sonoras usadas por grupos supremacistas. Esses conteúdos viralizaram entre grupos como os Proud Boys, que “celebram o tom da agência como validação”.

Além disso, o governo Trump contratou várias pessoas com histórico de comentários racistas, antissemitas e que encararam com bons olhos o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. O presidente dos Proud Boys, Enrique Tarrio, declarou ao New York Times que “do que temos do que reclamar hoje em dia? Coisas que fazíamos e falávamos em 2017 que eram tabu são mainstream agora”. A perseguição agressiva de Trump contra imigrantes indocumentados foi elogiada publicamente por figuras da extrema direita.

7. Descontrole do acesso às terras raras — a ofensiva sobre o Brasil

Os EUA lançaram uma ofensiva bilionária para garantir acesso às reservas de minerais críticos e terras raras do Brasil, que detém entre 20% e 23% das reservas mundiais — a segunda maior atrás apenas da China. A estratégia americana envolve investimentos de “dezenas de bilhões de dólares” em mineradoras brasileiras e a assinatura de um acordo bilateral que foi encaminhado ao Itamaraty em fevereiro de 2026. Especialistas alertam que a exploração desses minerais gera impactos ambientais significativos, e que os EUA veem o Brasil como moeda de troca para reduzir sua dependência da China.

8. Estratégias desesperadas contra a desdolarização

Diante do avanço dos BRICS+ — bloco que discute uma moeda comum para reduzir a dependência do dólar —, Trump adotou uma postura agressiva. Em agosto de 2025, o presidente ameaçou os países do bloco com tarifações pesadas caso avançassem na chamada “desdolarização”. Países como Brasil e China já adotaram o BRICS Pay, uma plataforma digital de pagamentos em moeda local, e o BRICS Bridge é desenvolvido como alternativa ao sistema Swift. Apesar disso, especialistas apontam que uma moeda única ainda é inviável no curto prazo, dado o receio da Índia e de outras nações de contrariar os EUA. A agenda de Trump para preservar a hegemonia do dólar tornou-se um dos focos de tensão com as economias emergentes.

Embora as autoridades americanas ainda não tenham estabelecido uma relação causal direta entre essas políticas e o atentado do último sábado, é inegável que o governo Trump atuou deliberadamente em múltiplas frentes — interna e externamente — com elevado grau de beligerância, desrespeito a normas internacionais, violência estrutural e retórica de ódio. Esse caldo de radicalização institucional pode, sim, ter atraído a fúria de atores isolados. O procurador-geral interino, Todd Blanche, limitou-se a afirmar que o suspeito “tinha como alvo pessoas da administração”, mas as investigações seguem em aberto. Até que se prove o contrário, a violência semeada pelo próprio governo continua sendo a hipótese mais plausível para explicar o segundo atentado contra Trump em menos de dois anos.

Com informações de BBC News Brasil, G1, UOL, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão, Poder360, Reuters, Associated Press (AP), Politico, NPR, RFI, Yahoo News, The New York Times (via Estadão), The Guardian, Agência Brasil, Rádio Itatiaia, Diário de Pernambuco, O Público (Portugal), Brasil de Fato, IHU Unisinos, El Heraldo, Laprensa.hn, Agência Câmara de Notícias, Vermelho, CartaCapital, Esquerda Diário e o Conselho Federal de Economia (via PUC-SP) ■

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