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O amplo espectro político que se autodenomina “direita” ou “campo conservador” no Brasil tem demonstrado, ao longo dos últimos anos, uma profunda dificuldade de consolidar uma aliança eleitoral minimamente estável. Mais do que divergências programáticas, o que se observa é um movimento pendular de autossabotagem exposto em episódios emblemáticos: a fracassada tentativa de criação do Aliança pelo Brasil (o sonhado “partido 38” do então presidente Jair Bolsonaro), as constantes trocas de provocações entre os herdeiros políticos do clã — como Nikolas Ferreira e Jair Renan Bolsonaro — e o êxodo de figuras que outrora foram símbolos da direita oposicionista para as fileiras da esquerda liderada por Luiz Inácio Lula da Silva. Agravando o cenário, pelo menos quatro pré-candidaturas a cargos majoritários estão sob o guarda-chuva de investigações do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Procuradoria-Geral da República, o que pode levar metade desse seleto grupo à inelegibilidade ou a sanções criminais, enterrando de vez o discurso de “renovação conservadora”.
A metáfora do Aliança 38: uma legenda que não vingou
A história recente da direita brasileira é repleta de projetos-símbolo que naufragaram antes mesmo de ganhar forma. O mais emblemático deles é o Aliança pelo Brasil, partido idealizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em novembro de 2019, após sua ruptura com o PSL (atual União Brasil). Em uma convenção realizada em um hotel de luxo de Brasília, Bolsonaro e seus aliados lançaram a “pedra fundamental” da legenda, que teria o número eleitoral 38 — uma escolha que, segundo o próprio presidente à época, fazia referência ao 38º Presidente da República, e não ao calibre do revólver, muito embora o evento de lançamento tenha incluído uma obra feita de cartuchos de bala com o nome e o símbolo do partido.
O projeto, contudo, rapidamente se mostrou inviável. A coleta das 492 mil assinaturas de eleitores exigidas por lei para a criação de uma nova sigla enfrentou uma série de percalços: assinaturas de pessoas falecidas, apoiamentos em duplicidade, erros de identificação e avais de filiados a outros partidos, o que inutilizava boa parte do esforço de coleta. Com o início da pandemia de Covid-19, a situação se complicou ainda mais. Em julho de 2021, o próprio Bolsonaro reconheceu publicamente o fracasso da empreitada: “Pode esquecer, não dá tempo de formar mais. É muito difícil formar um partido. Apesar de ser presidente e ter apoio de vocês, eu não consegui”, afirmou a apoiadores na saída do Palácio do Alvorada.
O prazo final para a apresentação das assinaturas expirou em abril de 2022, quando a legenda havia validado apenas 183 mil apoios — cerca de um terço do necessário. Em entrevista à CNN Brasil, o empresário Luis Felipe Belmonte, que seria vice-presidente da agremiação, confirmou o arquivamento do processo e admitiu que, com a filiação de Bolsonaro ao Partido Liberal (PL), “passou a não haver mais interesse na criação do partido”. O sonho de uma legenda genuinamente bolsonarista, que seria o grande guarda-chuva da direita unificada, desabou junto com as 183 mil assinaturas descartadas, deixando como legado apenas a metáfora do número 38 — um símbolo de um projeto que prometia ser a salvação da direita, mas que terminou em ruínas antes mesmo de sair do papel.
O racha exposto: Nikolas e os herdeiros Bolsonaro se digladiam em praça pública
Se a Aliança pelo Brasil foi um fracasso estrutural, as brigas internas entre as principais lideranças da direita nas redes sociais expõem um racha comportamental e de egos que fragiliza ainda mais qualquer tentativa de unidade. Nas últimas duas semanas, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL-SC) protagonizaram uma troca de provocações que se tornou pública e rapidamente viralizou. A confusão começou após o influenciador bolsonarista Junior Japa publicar um print de um vídeo de Nikolas Ferreira vestindo uma camiseta branca, ironizando: “Se trocou a camiseta preta pela branca é porque sentiu”. Jair Renan, conhecido como “Zero Quatro”, entrou na brincadeira com a palavra “Sentiu!”, intensificando o embate.
Irritado, Nikolas Ferreira respondeu à altura: “Se juntar a capacidade cognitiva dessa dupla não alcança a de uma toupeira cega”. O deputado mineiro, que nos últimos anos se consolidou como uma das vozes mais influentes da direita digital, também desabafou, afirmando que “as provocações que tenho sofrido já vêm acontecendo há 3 anos” e que “ninguém mais suporta” o clima interno de pressão.
O episódio forçou o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro a intervir publicamente com um pedido de pacificação, demonstrando a fragilidade do comando político do clã. “Apoio não se impõe, conquista-se! Deixe-me fazer do meu jeito”, escreveu Flávio em suas redes sociais, em uma tentativa explícita de apagar o incêndio interno. Contudo, analistas políticos ouvidos pela revista Veja avaliam que o conflito revela uma disputa por poder e liderança dentro do bolsonarismo, que até então operava sob lógica de “lealdade absoluta”. “Nikolas peca por ser mais popular nesse momento que o próprio Flávio Bolsonaro”, resumiu o colunista Robson Bonin, indicando que a ascensão do deputado mineiro gera tensões com o núcleo tradicional da família. A fragmentação, que também já havia se manifestado em desentendimentos públicos entre Nikolas e Eduardo Bolsonaro semanas antes, ameaça diretamente a estratégia eleitoral de Flávio em um momento de eleição presidencial acirrada.
A corrente de migração: de adversárias a aliadas de Lula
Se o núcleo duro da direita se despedaça internamente, a sua antiga periferia tem migrado em bloco para o campo progressista. Duas figuras femininas que se elegeram em 2018 sob a onda bolsonarista — Simone Tebet e Soraya Thronicke — mudaram radicalmente de lado e agora compõem a base de apoio do presidente Lula.
No caso de Simone Tebet (PSB), a ex-senadora e terceira colocada nas eleições presidenciais de 2022, que hoje ocupa o Ministério do Planejamento, oficializou em março de 2026 sua filiação ao PSB — deixando o MDB após 27 anos. Tebet deve disputar uma vaga ao Senado por São Paulo nas eleições de 2026, agora como aliada declarada de Lula. Em entrevista à Globonews em julho de 2025, a ministra já havia afirmado não ver possibilidade de “estar em outro palanque que não o do presidente Lula” no próximo pleito, selando sua transição do campo conservador para o campo progressista.
A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MT) deu um passo ainda mais radical. Eleita em 2018 com o slogan “a senadora do Bolsonaro” pelo PSL, Thronicke não apenas abandonou o bolsonarismo como passou a fazer duras críticas ao núcleo do ex-presidente. “Eu fui vítima do gabinete do ódio. Eles são kamikazes, por isso que eu chamo de seita. Na seita você tem que seguir o líder e não pensar”, declarou em entrevista à BBC Brasil. Em fevereiro de 2026, a revista Fórum revelou que Soraya encaminhou sua filiação ao PSB para disputar a reeleição em uma chapa lulista no Mato Grosso do Sul, articulando uma “dobradinha” com o deputado federal Vander Loubet (PT) e contando com o aval pessoal do presidente Lula. O movimento representa uma “virada de mesa” completa: uma senadora eleita pelo bolsonarismo e forte aliada de Sérgio Moro se prepara para concorrer ao lado do Partido dos Trabalhadores, em uma demonstração inequívoca de que a corrente migratória da direita para a esquerda não é exceção, mas tendência.
O inquérito das fake news e as possíveis inelegibilidades
Enquanto as alianças se rompem e as lideranças se digladiam, o Supremo Tribunal Federal (STF) mantém em curso o chamado Inquérito das Fake News, aberto em 2019 para apurar ameaças à Corte e a disseminação de desinformação. O inquérito, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, completa sete anos de tramitação em 2026 e é alvo de intensa controvérsia: de um lado, defensores da apuração afirmam ser necessário combater ataques à democracia; de outro, líderes da oposição e analistas temem que o instrumento se torne um “TSE paralelo”, usado para perseguir adversários políticos na calada da lei.
O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, tem sido o principal articulador de uma linha mais dura de enfrentamento. Em abril de 2026, Gilmar pediu formalmente ao ministro Alexandre de Moraes que o ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), fosse incluído no inquérito das fake news, após Zema publicar uma série de vídeos com críticas ao Supremo. “Há uma indústria de difamação e de acusações caluniosas contra o Supremo. Vou enfrentá-la”, escreveu Gilmar nas redes sociais. A inclusão de Zema no inquérito, se confirmada, pode resultar na abertura de uma ação penal contra o ex-governador, com consequências diretas sobre sua elegibilidade nas eleições de 2026.
Além de Zema, o próprio senador Flávio Bolsonaro também é alvo de investigações no STF. Em abril de 2026, a Deutsche Welle reportou que o ministro Alexandre de Moraes é relator de diversas ações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, incluindo o inquérito das fake news e os atos antidemocráticos. Ainda que o mero fato de ser investigado não implique inelegibilidade automática, o risco de indiciamento ou de condenação por crimes como calúnia, difamação ou associação criminosa pode levar à aplicação da Lei da Ficha Limpa, que impede candidatos condenados em segunda instância de disputar eleições por até oito anos.
O caso Sérgio Moro e a difamação contra Gilmar Mendes
O senador Sérgio Moro (União Brasil-PR), talvez o maior símbolo da Lava Jato e do antipetismo que elegeu Bolsonaro em 2018, enfrenta um processo criminal por calúnia contra o ministro Gilmar Mendes. A Procuradoria-Geral da República denunciou Moro após a circulação de um vídeo gravado durante uma festa junina em 2022, no qual o ex-juiz, em tom descontraído, afirmou que poderia “comprar um habeas corpus do Gilmar Mendes”.
A defesa de Moro alegou que a fala foi uma brincadeira fora de contexto, mas o STF não acolheu o recurso. Em março de 2026, a Primeira Turma do STF, por unanimidade, rejeitou os embargos de declaração apresentados pela defesa, mantendo Moro como réu na ação penal. A ministra Cármen Lúcia, relatora do caso, foi enfática: “A via recursal escolhida não se presta para renovação de julgamento que se efetivou regularmente”.
Se condenado em segunda instância, Moro poderá se tornar inelegível com base na Lei da Ficha Limpa, encerrando qualquer pretensão eleitoral futura — de uma possível candidatura ao Planalto ou mesmo à reeleição para o Senado. Somam-se a ele outros pré-candidatos de projeção nacional, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, já declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 2030 por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A somatória de inelegibilidades — Zema (potencial), Flávio (potencial), Moro (potencial) e Bolsonaro (já confirmada) — pode representar a eliminação de pelo menos quatro grandes nomes que o campo conservador pretendia lançar como candidatos majoritários em 2026. Não à toa, aliados do ex-presidente correm contra o tempo para tentar alterar a Lei da Ficha Limpa ou aprovar um projeto de anistia que os livre das sanções.
Conclusão: uma aliança que nunca foi
O que os episódios narrados acima revelam, em seu conjunto, é a natureza frágil e efêmera da “aliança de direita” que se pretendeu construir no Brasil a partir de 2018. Ela fracassou como partido (Aliança pelo Brasil), fracassou como frente unificada (brigas internas expostas nas redes), perdeu quadros importantes para o campo adversário (Tebet, Soraya) e agora enfrenta o risco real de ter sua espinha dorsal alcançada e julgada por inquéritos e ações penais que podem levar parte significativa de seus líderes à inelegibilidade ou à prisão.
A metáfora final é cruel: a direita tentou construir uma casa sobre alicerces de areia. O número 38, que poderia simbolizar força e projeto de poder, termina como um amuleto quebrado — um símbolo de um movimento que se perdeu em suas próprias contradições e fez uma aliança que foi concebida para um fim antes mesmo de ter um começo.
Com informações de Folha de S.Paulo, CNN Brasil, CartaCapital, G1, O Globo, Veja, Gazeta do Povo, Revista Fórum, Jovem Pan, Poder360, Metrópoles, DW Brasil, Congresso em Foco, Exame, Jota, Oeste, Revista Veja, Agência Brasil, ND+, Bahia Notícias, InfoMoney, Brasil 247, UOL, Jornal de Brasília e O Tempo ■