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O anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã na noite de 7 de abril de 2026 foi recebido com alívio em Washington, Teerã e na sede da ONU em Nova York. Mas a comemoração durou pouco. Apenas horas depois de Donald Trump declarar que “concordou em suspender o bombardeio e o ataque ao Irã por um período de duas semanas”, Israel — o mais próximo aliado dos EUA na região — demonstrou que não estava disposto a baixar as armas. Entre a meia-noite e o amanhecer de 8 de abril, aviões israelenses continuaram a atingir alvos em solo iraniano, segundo relatos de fontes militares e da imprensa internacional, lançando uma sombra de dúvida sobre a real eficácia da trégua negociada pelo Paquistão.
Mais do que um episódio de comunicação falha entre aliados, a continuidade dos ataques israelenses revela uma dinâmica mais profunda: Israel nunca se comprometeu plenamente com os termos do cessar-fogo e, desde o primeiro momento, tratou o acordo como uma pausa tática — não como o fim das hostilidades. A escalada que se seguiu ao anúncio de Trump expõe as tensões estruturais entre os objetivos americanos de desescalada e os interesses estratégicos israelenses de enfraquecimento permanente do Irã.
O timing do ataque: horas antes e horas depois do cessar-fogo
A cronologia dos fatos é reveladora. Na noite de 7 de abril, momentos antes de o ultimato de Trump expirar e de o cessar-fogo ser formalmente anunciado, a Força Aérea de Israel realizou uma nova onda de ataques aéreos contra o Irã. De acordo com a agência russa TASS, as Forças de Defesa de Israel (FDI) informaram ter atingido “dezenas de locais de lançamento iranianos”, frustrando “uma barragem mais ampla de mísseis balísticos” planejada contra o Estado judeu. O comunicado militar israelense afirmou ainda que infraestruturas de produção-chave afiliadas ao regime iraniano foram atingidas em múltiplas áreas da república islâmica.
Mas o que realmente abalou a credibilidade do cessar-fogo foi o que aconteceu depois. Poucas horas após Trump anunciar a suspensão dos bombardeios, fontes da imprensa israelense e internacional começaram a reportar que os ataques não haviam cessado. O jornal The Times of Israel, citando um oficial de segurança israelense anônimo, informou que “apesar do anúncio do cessar-fogo, a Força Aérea Israelense continua realizando ataques no Irã”. A agência de notícias chinesa Xinhua, em reportagem publicada na manhã de 8 de abril, corroborou a informação: “O Canal 12 de Israel informou que as FDI estão ‘atacando ativamente’ locais de lançamento em território iraniano”. A agência de notícias AP também ouviu um oficial militar israelense que confirmou a continuidade das operações, contradizendo a declaração da Casa Branca de que Israel havia concordado com a trégua.
Por volta das 8h do dia 8 de abril, novas informações davam conta de um ataque em larga escala contra alvos da indústria pesada iraniana. O portal chinês The Paper, citando fontes da Força Aérea israelense, informou que “Israel realizou um ataque em grande escala contra alvos da indústria pesada iraniana”, e que a força aérea “ainda não havia recebido do governo a ordem de suspender os voos de ataque”. Enquanto as bombas caíam, o Irã respondia com mísseis. A agência BSS/AFP reportou que “o Irã disparou vários mísseis balísticos contra Israel desde que o acordo deveria entrar em vigor”.
Em meio ao fogo cruzado, a posição oficial de Israel era contraditória. Em comunicado, as FDI afirmaram que “cessaram fogo na operação contra o Irã” e que estavam “em alerta máximo para defesa, prontas para responder a qualquer violação”. Ao mesmo tempo, fontes anônimas confirmavam à imprensa que os ataques continuavam. O resultado foi um cenário de informações conflitantes que minou a confiança no acordo desde seu primeiro dia de vigência.
A cláusula de exclusão: Israel retira o Líbano da mesa
Se os ataques ao Irã já eram uma violação — ao menos tácita — do espírito do cessar-fogo, a segunda frente aberta por Israel no Líbano representou um desafio ainda mais explícito aos termos negociados. Horas após o anúncio da trégua, o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu emitiu uma nota que deixou claro: “O cessar-fogo de duas semanas não inclui o Líbano”. A declaração contrariava diretamente o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, mediador do acordo, que havia afirmado que o cessar-fogo na guerra também abrangia o território libanês.
O ato seguinte foi ainda mais contundente. Na madrugada de 8 de abril, as Forças de Defesa de Israel retomaram as operações terrestres direcionadas contra o Hezbollah no sul do Líbano. Um ataque aéreo contra um prédio nas proximidades de um hospital na cidade costeira de Tiro matou ao menos quatro pessoas, de acordo com a Reuters. Em comunicado oficial, as FDI afirmaram que “simultaneamente, no Líbano, as FDI continuam realizando operações terrestres direcionadas contra a organização terrorista Hezbollah”. O Exército israelense também emitiu ordens de evacuação para moradores de subúrbios de Tiro, instruindo a população a se deslocar para o norte do rio Zahrani.
A decisão de excluir o Líbano do cessar-fogo não foi um detalhe negligenciável — foi uma manobra estratégica deliberada. O Hezbollah, grupo libanês apoiado pelo Irã, vinha travando confrontos diários com Israel desde o início da guerra contra Teerã em 28 de fevereiro, como parte do esforço iraniano de abrir frentes múltiplas contra o Estado judeu. Ao anunciar que a trégua não se aplicava ao Líbano, Netanyahu sinalizou que Israel não considera a paz com o Irã extensiva a seus aliados regionais — e que a guerra contra o chamado “eixo da resistência” continuará independentemente dos acordos firmados em Islamabad.
Para o governo do Líbano e para a comunidade internacional, a decisão israelense representou um golpe duro. A França, por meio do presidente Emmanuel Macron, reagiu imediatamente, classificando a trégua como “algo muito bom”, mas acrescentando: “Nosso desejo neste contexto é garantir que o cessar-fogo inclua plenamente o Líbano”. O secretário-geral da ONU, António Guterres, por sua vez, fez um apelo “a todas as partes no conflito atual no Oriente Médio para que cumpram suas obrigações nos termos do direito internacional”.
Infraestrutura civil no foco: Israel executa o que Trump ameaçou
Outro elemento que expõe a desconexão entre Washington e Jerusalém diz respeito à natureza dos alvos atacados. Ao longo de 7 de abril, enquanto Trump ainda ameaçava “apagar uma civilização inteira” caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto, Israel já estava no terreno executando exatamente o tipo de ataque que o presidente americano havia verbalizado — mas que diplomatas em todo o mundo consideravam uma potencial violação do direito internacional.
A CNN Brasil, em reportagem intitulada “Israel materializa ameaças de Trump sobre infraestrutura civil no Irã”, documentou os ataques israelenses contra pontes rodoviárias e linhas férreas nos arredores de Teerã e no noroeste do país. Em Karaj, um ataque deixou feridos próximos a uma linha férrea e interrompeu o fornecimento de energia em algumas áreas da cidade. Uma ponte em um trecho da rodovia que liga Teerã a Tabriz foi atingida na província de Zanjan, onde uma ponte ferroviária também foi alvo. Em Qazvin, outra ferrovia foi atacada. Em Kashan, cerca de 250 km ao sul da capital, um ataque aéreo contra uma ponte rodoviária resultou na morte de duas pessoas, de acordo com a agência de notícias iraniana Mehr.
Em um vídeo divulgado publicamente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu justificou os ataques afirmando que as pontes e linhas férreas eram utilizadas pela Guarda Revolucionária do Irã para “transportar matéria-prima para armas, as próprias armas e os” combatentes. Horas antes, as FDI haviam publicado um comunicado em farsi nas redes sociais alertando os iranianos para evitarem a utilização de trens e se manterem afastados de linhas férreas — um prenúncio da intensidade dos ataques que se seguiriam.
O caráter civil da infraestrutura atacada — pontes e ferrovias utilizadas pela população em geral, e não apenas por militares — levanta sérias questões jurídicas. Especialistas em direito internacional humanitário têm argumentado consistentemente que ataques a infraestrutura civil de uso dual (civil e militar) devem respeitar o princípio da proporcionalidade. No momento em que as bombas israelenses caíam sobre as pontes do Irã, manifestantes iranianos formavam correntes humanas ao redor de usinas de energia em todo o país, atendendo a um apelo do governo para proteger a infraestrutura nacional das ameaças de Trump. A imagem era paradoxal: as usinas resistiam, mas as pontes caíam.
Pressão interna: a oposição israelense condena Netanyahu
A decisão de Netanyahu de apoiar — ainda que com ressalvas — o cessar-fogo com o Irã gerou forte reação negativa dentro de Israel. O líder da oposição, Yair Lapid, classificou o acordo como “um desastre diplomático” e afirmou que Israel ficou de fora de decisões essenciais para sua própria segurança nacional. “Nunca houve um desastre diplomático como este em toda a nossa história”, escreveu Lapid na rede X. “Netanyahu falhou diplomaticamente, falhou estrategicamente e não atingiu nenhum dos objetivos que ele próprio estabeleceu”. Lapid acrescentou que levará “anos para reparar os danos causados pela arrogância, negligência e falta de planejamento do governo atual”.
As críticas da oposição refletem um dilema mais amplo enfrentado por Netanyahu. Por um lado, Israel depende militar e diplomaticamente dos Estados Unidos e não pode dar-se ao luxo de rejeitar abertamente um acordo patrocinado pela Casa Branca. Por outro lado, a base política de Netanyahu — e setores influentes do establishment de segurança israelense — considera qualquer trégua com o Irã como uma concessão perigosa, que permitiria ao regime iraniano recuperar o fôlego e reconstituir suas capacidades militares. A solução encontrada por Netanyahu foi ambígua: apoiar o cessar-fogo em palavras, mas mantê-lo sob rasura, com exceções e ataques contínuos que desmentem a suspensão formal das hostilidades.
A reação iraniana: resistência e retaliação
Do lado iraniano, a resposta à continuidade dos ataques israelenses foi rápida e contundente. Além dos disparos de mísseis balísticos contra Israel reportados pela imprensa, manifestantes pró-governo saíram às ruas de Teerã entoando palavras de ordem como “Morte à América, morte a Israel, morte aos comprometedores”. O governo iraniano tratou o cessar-fogo como uma vitória: o Conselho Supremo de Segurança Nacional do país afirmou que a guerra “está terminando nos termos do Irã”.
Mas a escalada israelense também expôs uma fragilidade. Um ataque noturno em Teerã que visava um comandante sênior iraniano causou “danos colaterais” a uma sinagoga da capital, segundo a própria admissão das FDI. O episódio, que gerou constrangimento diplomático para Israel, foi utilizado por Teerã para denunciar a “barbárie” dos ataques israelenses contra locais de culto.
No plano diplomático, o Irã afirmou que apresentou um plano de paz de dez pontos que os Estados Unidos “foram forçados a aceitar”. Entre as exigências de Teerã estão o fim dos ataques, o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, o direito ao enriquecimento de urânio em solo iraniano, o levantamento de todas as sanções primárias e secundárias, o pagamento integral pelos danos causados pela guerra e a retirada das forças de combate americanas da região. O plano é ambicioso — e quase certamente inaceitável para Washington em sua forma integral — mas demonstra como Teerã percebe o momento como de vantagem negociadora, apesar da continuidade dos ataques israelenses.
As fissuras na aliança EUA-Israel: o que está em jogo
A continuidade dos ataques israelenses após o anúncio do cessar-fogo coloca em evidência uma verdade desconfortável para a diplomacia americana: a aliança EUA-Israel, embora sólida, não é monolítica. Quando Trump anunciou a suspensão dos bombardeios, ele afirmou que “Israel também concordou” com a trégua. Mas os fatos subsequentes sugerem que o compromisso israelense era, no mínimo, condicional.
Fontes israelenses ouvidas pela imprensa indicaram que o país não concordou com o cessar-fogo “por vontade própria”, mas sim sob pressão americana. O The Paper, citando um “familiarizado com a situação”, informou que “Israel cumprirá o cessar-fogo, mas que não o fez voluntariamente, e que sua lista de alvos ainda contém mais objetivos que deseja atingir por meio de ação militar no Irã”. A mensagem implícita é clara: se depender exclusivamente de Israel, a guerra continuará — e a trégua de duas semanas é vista como uma interrupção indesejada, não como uma oportunidade para a paz.
Essa dinâmica coloca Trump em uma posição delicada. O presidente americano precisa de Israel como aliado estratégico na região e não pode dar-se ao luxo de alienar o governo Netanyahu. Mas também não pode ignorar que os ataques israelenses contínuos ameaçam minar a credibilidade do cessar-fogo e a confiança de Teerã no processo de negociação. O primeiro teste dessa equação virá na sexta-feira, 10 de abril, quando representantes dos EUA e do Irã devem se reunir em Islamabad para negociar um plano de paz definitivo, com mediação paquistanesa. Se Israel mantiver os ataques durante as negociações, a possibilidade de um acordo duradouro tornar-se-á remota.
Análise crítica: um cessar-fogo de papel
O que os eventos das últimas 24 horas revelam é que o cessar-fogo entre EUA e Irã, tal como anunciado, é em grande medida um acordo de papel — uma declaração de intenções que não encontra correspondência plena no terreno. Israel, o principal parceiro militar americano na região, não apenas continuou a atacar o Irã após o anúncio, como abriu uma segunda frente no Líbano, contrariando as expectativas do mediador paquistanês e da comunidade internacional.
Há pelo menos três interpretações possíveis para essa aparente contradição. A primeira é que a coordenação entre Washington e Jerusalém falhou — que Trump anunciou o cessar-fogo sem ter assegurado o compromisso efetivo de Netanyahu, gerando um desalinhamento perigoso. A segunda é que Israel está deliberadamente testando os limites do acordo, atacando alvos que considera “cinzentos” o suficiente para não constituírem uma violação explícita, mas contundentes o bastante para enfraquecer o Irã. A terceira — e mais preocupante — é que Israel está preparando o terreno para o fim da trégua, mantendo o ritmo dos ataques para que, quando as duas semanas terminarem, a guerra possa recomeçar exatamente de onde parou, sem que o Irã tenha tido tempo de se reorganizar.
Qualquer que seja a interpretação correta, um fato é incontornável: o cessar-fogo que deveria abrir caminho para a paz está, na prática, convivendo com a continuidade da guerra. Enquanto diplomatas se preparam para se reunir em Islamabad, bombas continuam a cair sobre pontes e ferrovias iranianas, e mísseis iranianos continuam a ser lançados em direção a Israel. O resultado é uma paz frágil, contraditória e permanentemente à beira do colapso — uma trégua que, nas palavras de um analista, “pode ser apenas uma pausa para ambos os lados recarregarem as baterias antes do próximo round”.
Conclusão: a guerra que não acaba
A continuidade dos ataques israelenses após o anúncio do cessar-fogo é mais do que um detalhe operacional — é um sintoma de que a guerra no Oriente Médio está longe de terminar. O acordo entre EUA e Irã, por mais bem-intencionado que seja, não conseguiu conter a lógica expansionista do conflito. Israel, que vê no enfraquecimento do Irã uma questão de sobrevivência nacional, não está disposto a interromper suas operações militares apenas porque Trump decidiu dar uma pausa.
A questão que se coloca agora é se os próximos dias serão suficientes para construir uma paz real — ou se a trégua de duas semanas será lembrada apenas como um breve interlúdio em uma guerra mais longa e mais sangrenta. As evidências disponíveis sugerem que a segunda hipótese é mais provável. Enquanto Israel continuar a atacar e a excluir o Líbano do acordo, enquanto o Irã continuar a disparar mísseis e a exigir o levantamento de sanções, e enquanto os EUA continuarem a oscilar entre ameaças apocalípticas e recuos de última hora, a paz permanecerá um horizonte distante. O cessar-fogo de papel resistirá, mas a guerra de fato continuará.
Com informações de Al Jazeera, AP News, Associated Press, BBC News, BSS/AFP, CNN Brasil, CBN Globo, China News Service, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, GZH, O Globo, Reuters, TASS, The Paper (????), The Times of Israel, UOL, Xinhua (???), 163.com ■