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Como os adiamentos de Trump estão cozinhando o mercado financeiro
Em meio ao fogo cruzado de prazos e recuos na guerra contra o Irã, o dólar surfou na volatilidade geopolítica e consolidou-se como o porto-seguro definitivo — impulsionando uma alta de 4 a 5% em um único mês e transformando o meme TACO em tese de investimento
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/04/2026

O presidente Donald Trump tem uma relação complicada com o dólar forte. Durante sua campanha e ao longo do mandato, ele repetiu à exaustão que preferia uma moeda americana mais fraca para impulsionar as exportações e diminuir o déficit comercial. Mas a guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, deu à sua estratégia um rumo diametralmente oposto. A cada novo ultimato, a cada ameaça apocalíptica, a cada recuo de última hora — o chamado “TACO” (Trump Always Chickens Out) — o dólar não apenas se fortaleceu como registrou sua maior valorização mensal em anos, expondo a mais irônica das consequências da política externa trumpista.

A valorização em números: de 2% a 5% em um mês

Os números colhidos em diferentes índices e fontes mostram uma valorização consistente do dólar desde o início do conflito. O índice DXY, que mede a força da moeda americana contra uma cesta de seis divisas de mercados desenvolvidos, subiu 2,29% em março de 2026, segundo dados da Yonhap Infomax, registrando seu maior ganho mensal desde julho de 2025. O Bloomberg Dollar Spot Index, por sua vez, avançou cerca de 3% no mesmo período, impulsionado pelos fluxos de porto-seguro e pela posição dos EUA como o maior produtor mundial de petróleo bruto.

No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o dólar registrou uma alta de 1,67%, o melhor desempenho trimestral desde o final de 2024. O índice DXY atingiu 100,64 no dia 31 de março, o maior patamar desde maio de 2025, com uma valorização mensal de quase 3%. Já o Khaleej Times reportou que o DXY subiu mais de 2,5% desde o início da guerra. O MUFG, por sua vez, estima que o aumento de 60% a 70% no preço do petróleo deveria, teoricamente, impulsionar o dólar em 4% a 5% — sugerindo que a moeda americana ainda tem espaço para subir, mas que sua ascensão real foi moderada por fatores estruturais.

Por que o dólar disparou? A tríade explosiva: petróleo, taxas e porto-seguro

Três mecanismos principais explicam a apreciação do dólar em meio à guerra e ao vaivém de Trump. O primeiro é o choque do petróleo. Com o fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã, os preços do barril dispararam. O Brent de maio fechou março a US$ 118,35, uma alta de 63% no mês — o maior patamar desde a introdução dos futuros de petróleo em 1988. O WTI avançou 51% no mesmo período. Como os EUA se tornaram um exportador líquido de energia, o país está relativamente isolado do choque, ao contrário da Europa e da Ásia, que dependem fortemente de importações. O petrodólar — o fato de o petróleo ser majoritariamente transacionado em dólares — força os países importadores a comprar a moeda americana para financiar suas contas de energia, criando uma demanda estrutural adicional.

O segundo mecanismo é o fim das expectativas de corte de juros pelo Fed. Com a inflação em alta impulsionada pelo petróleo, o mercado reduziu drasticamente as apostas em cortes de juros pelo Federal Reserve. Pelo contrário: em meados de março, 18,5% dos participantes do mercado já precificavam uma alta de juros ainda em 2026. Juros mais altos nos EUA, naturalmente, atraem capitais estrangeiros e valorizam o dólar.

O terceiro — e mais relevante para a tese TACO — é a fuga para a qualidade em meio à imprevisibilidade trumpista. Em situações de crise geopolítica, investidores buscam ativos seguros. Historicamente, o ouro e o franco suíço cumpriam esse papel. Mas nesta guerra, o desempenho foi inverso: enquanto o dólar disparou, o ouro despencou 11,96% em março — seu pior desempenho mensal desde junho de 2013 — e o franco suíço caiu cerca de 3,5% no período. O dólar recuperou, assim, sua coroa de porto-seguro definitivo. Como resumiu o Khaleej Times: “O dólar americano recuperou seu status de porto-seguro desde o início da guerra do Irã. Neste momento de incerteza global, outros portos-seguros populares — o ouro e o franco suíço — simplesmente não se sustentaram”.

A dança dos prazos: como o TACO alimenta o dólar

A estratégia de Trump de emitir ultimatos bombásticos e depois recuá-los criou um padrão de volatilidade perfeitamente orquestrado que beneficia o dólar em ambos os movimentos:

  • Quando Trump ameaça (novo ultimato, novas promessas de “destruição total” das usinas iranianas, ameaças de “apagar uma civilização”), o preço do petróleo dispara, as bolsas despencam, e investidores correm para o dólar como porto-seguro. Em 2 de abril, após Trump prometer mais ataques ao Irã, o dólar saltou 0,68% em um único dia, com o DXY atingindo 100,24, sua melhor performance desde 18 de março. O petróleo subiu 8% para US$ 109,10.
  • Quando Trump recua (anuncia que adiou o bombardeio por cinco, dez ou quatorze dias porque as conversas com o Irã estão “muito boas e produtivas”), o petróleo despenca, as bolsas sobem — mas o dólar não cai na mesma proporção. O alívio momentâneo é rapidamente corroído pela percepção de que o conflito não tem fim à vista, e que a palavra do presidente vale cada vez menos. Como observou o The Guardian, “embora as notícias de que Washington enviou ao Irã um plano de paz tenham sido bem-vindas, os mercados ficaram assustados novamente desde então, à medida que os investidores perceberam que as palavras do presidente significam pouco”.

O resultado é uma assimetria que funciona como um motor de apreciação estrutural do dólar: a volatilidade nos preços do petróleo e nos mercados acionários mantém os investidores em estado de alerta permanente, e a única moeda que consistentemente se valoriza em ambos os cenários — ameaça ou recuo — é o dólar.

O paradoxo de Trump: o dólar forte que ele não queria

A ironia, claro, é que Trump sempre odiou o dólar forte. Durante seu primeiro mandato e ao longo de sua campanha, ele repetiu que uma moeda americana valorizada prejudica a competitividade das exportações dos EUA. Em 2025, ele pressionou o Fed a cortar juros justamente para desvalorizar o dólar. Mas a guerra no Irã produziu o efeito oposto: forçou o Fed a manter juros altos, atraiu capitais para ativos americanos e consolidou o dólar como o único porto-seguro funcional em meio ao caos geopolítico que ele mesmo ajudou a criar.

Analistas do Commonwealth Bank of Australia resumiram o dilema: “O dólar pode ceder moderadamente no curto prazo por causa do otimismo de que os EUA ‘terminarão’ a guerra do Irã. No entanto, há três participantes na guerra: EUA, Israel e Irã. O que importa para a economia mundial e para as moedas é saber se o Estreito de Ormuz está aberto. Os EUA saírem do conflito não reabre o Estreito”. Em outras palavras, Trump não tem controle total sobre a alavanca que realmente move o dólar — a reabertura do Estreito depende de Teerã, não de Washington.

Impactos globais: as moedas asiáticas sangram

A valorização do dólar teve efeitos devastadores sobre as moedas dos países emergentes e desenvolvidos. Na Ásia, a rupia indiana atingiu uma mínima recorde de 95,21 por dólar, o menor patamar da história. A rupia indonésia caiu para 17.026 por dólar, também um recorde histórico. O won sul-coreano enfraqueceu para o lado fraco de 1.500, um nível visto apenas durante as crises de 2009 e do final dos anos 1990. O iene japonês, tradicional porto-seguro, surpreendentemente recuou, sendo negociado perto de 160 por dólar, aproximando-se de máximas plurianuais. O baht tailandês desvalorizou 6% apenas em março, com posições vendidas na moeda atingindo o maior patamar desde outubro de 2022.

Mesmo moedas de países desenvolvidos sofreram: o euro caiu 2,21% em março, seu pior desempenho trimestral desde o terceiro trimestre de 2024, e a libra esterlina perdeu 1,94% no mesmo período.

A ameaça de longo prazo: o petro yuan

Nem tudo, porém, é vento a favor do dólar. A guerra também acelerou discussões sobre uma eventual erosão da hegemonia do dólar. O Deutsche Bank alertou que o conflito pode ser o catalisador para o fim da era do petrodólar e o início da era do “petro yuan”, uma vez que há relatos de que o Irã estaria exigindo pagamento em yuans para permitir a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz. A China, maior importadora de petróleo do mundo, tem interesse nessa transição — e a guerra fornece o pretexto.

Além disso, investidores institucionais como Invesco e Barclays temem que a guerra reacenda discussões sobre uma mudança fundamental e de longo prazo para fora dos mercados e do dólar americano, impulsionada pelas idiossincrasias da formulação de políticas sob Trump. A dívida nacional americana, que já ultrapassa US$ 39 trilhões, também pesa sobre as perspectivas de longo prazo da moeda.

Conclusão: o TACO virou tese, mas por quanto tempo?

Enquanto durar a guerra, e enquanto Trump mantiver seu padrão de ameaças e recuos, o dólar tende a permanecer forte. O MUFG estima que o choque do petróleo deveria ter valorizado o dólar em 4% a 5% — um patamar ainda não atingido, o que sugere que a moeda americana pode ter espaço adicional de alta se o conflito se prolongar ou se as tensões se intensificarem.

No entanto, há riscos. A estratégia TACO tem prazo de validade. À medida que o mercado aprende a antecipar os recuos, a margem de manobra de Trump se estreita. A percepção de que o presidente não tem controle real sobre o conflito — e de que a decisão de reabrir o Estreito de Ormuz está nas mãos de Teerã — pode eventualmente minar a confiança no dólar. Por ora, porém, o meme virou tese: TACO não é apenas uma piada sobre um presidente que recua. É uma descrição precisa de um mercado que aprendeu a surfar na hesitação de Trump — e que, no processo, transformou o dólar no maior beneficiário da guerra.

Com informações de Yonhap Infomax, Bloomberg, Hindustan Times, Khaleej Times, The Guardian, MUFG, Reuters, Zawya, CNBC, MarketWatch, The Economic Times, Livemint, Fortune, BBC News, FT, Deutsche Bank, Asia Times, The New Arab, CNFin, Hexun, South China Morning Post, Nikkei Asia, Yomiuri Shimbun, Korea Times, The Edge Singapore, Investing.com, ForexLive, Cambridge Associates, Macquarie, Barclays, CIBC Capital Markets, Commonwealth Bank of Australia, Pepperstone, Manulife Investment Management ■

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