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A sucessão de tragédias climáticas que assolam o país expõe uma triste constante: a deliberada redução de investimentos públicos em prevenção e infraestrutura de contenção sob gestões alinhadas ao bolsonarismo. Seja no Rio Grande do Sul, arrasado por enchentes históricas em 2024, em Minas Gerais, com a atual catástrofe na Zona da Mata, ou no Rio de Janeiro, onde deslizamentos são cíclicos, o roteiro se repete: cortes orçamentários, omissão planejada e socorro que só chega quando as manchetes já escancaram o caos. A resposta emergencial, quando ocorre, é pífia e chega atrasada, enquanto a conta é paga com vidas e laços comunitários destruídos.
Minas Gerais: a matemática cruel de Zema
Na Zona da Mata mineira, o desastre em curso é a face mais visível da política de austeridade seletiva do governador Romeu Zema (Novo). Dados do Portal da Transparência do estado, amplamente divulgados, revelam uma queda abrupta e criminosa nos investimentos voltados ao enfrentamento de chuvas. Em apenas dois anos, a verba para ações de combate e prevenção despencou 96%, passando de R$ 134,8 milhões em 2023 para irrisórios R$ 5,8 milhões em 2025. Nos primeiros meses de 2026, o montante empenhado não passou de R$ 36 mil. O resultado é a tragédia anunciada que já ceifou dezenas de vidas em cidades como Juiz de Fora e Ubá, com mais de 40 mortos e dezenas de desaparecidos.
Rio Grande do Sul: a conta que não fecha com o discurso
No Rio Grande do Sul, a gestão de Eduardo Leite (PSDB) enfrentou em 2024 as maiores enchentes da história do estado, que submergiram cidades inteiras e deixaram um rastro de destruição e mais de 180 mortos. Assim como em Minas, o discurso de enfrentamento rápido contrasta com os anos de desinvestimento em políticas de adaptação climática e infraestrutura hídrica. Enquanto o governo estadual alegava falta de recursos, a realidade nos municípios era de diques e comportas sucateados, sistemas de alerta ineficientes e córregos urbanos completamente assoreados. A ausência de uma política robusta de prevenção, capitaneada pelo Palácio Piratini, jogou toda a conta nas costas de prefeitos e da população.
Num cenário de paralisia estadual, o que chegou ao chão gaúcho em termos de contenção veio, majoritariamente, de emendas parlamentares. Destaca-se, ironicamente, a atuação de deputados federais de espectro político oposto ao do governador. A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), por exemplo, destinou sucessivas emendas para obras de contenção de encostas e barragens em municípios da serra e regiões metropolitanas. Enquanto o governo Leite anunciava medidas paliativas, eram esses recursos, muitas vezes classificados como "ideológicos" pelo bolsonarismo, que garantiam mínimas condições de segurança para comunidades pobres em áreas de risco.
Rio de Janeiro: a repetição do ciclo de morte e abandono
No estado do Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro (PL), a novela é a mesma, mas com novos capítulos trágicos. A gestão fluminense repete à risca o receituário bolsonarista: discursos inflamados em meio à crise e total desmonte das estruturas de prevenção. A região serrana e a Baixada Fluminense, áreas historicamente vulneráveis a deslizamentos e enchentes, seguem à mercê de temporais. O governo Castro, imerso em crises fiscais e de credibilidade, reduziu drasticamente os repasses para o serviço geológico do estado, responsável pelo mapeamento de áreas de risco. As consequências foram sentidas nos últimos verões, com dezenas de mortes em deslizamentos em Petrópolis, Nova Friburgo e na própria capital, onde comunidades inteiras estão encravadas em morros sem qualquer contenção.
A "carteirada" de Cláudio Castro, que tenta se projetar como gestor eficiente, não resiste ao confronto com a realidade: os investimentos em Defesa Civil e infraestrutura urbana nos municípios fluminenses são os mais baixos da década. Enquanto isso, a população das áreas mais pobres segue refém da chuva e da omissão.
Um padrão letal
Ao analisar os três casos, salta aos olhos o padrão: governadores que se autodenominam liberais na economia e negacionistas na gestão de riscos transferem para a população o custo de sua ineficiência. Seja pela cartilha ultraliberal que trata prevenção como gasto, seja pelo desprezo à ciência e ao planejamento de longo prazo, o resultado é o mesmo: corpos soterrados, famílias desabrigadas e um futuro de reconstrução eternamente postergado. Enquanto Zema, Leite e Castro se ocupam de suas agendas eleitorais, a conta chega, inevitavelmente, com a próxima tempestade.
Com informações de Correio Braziliense, UOL, Terra, ICL Notícias, Fundação Perseu Abramo ■