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A chegada do verão no Rio de Janeiro, tradicionalmente associada a dias ensolarados e vida ao ar livre, tem se traduzido em um cenário de crise para milhares de cariocas. Ondas de calor extremo, com temperaturas superando os 40°C, não só testam a resistência da população, mas expõem de forma brutal as fragilidades crônicas do sistema de distribuição de energia elétrica da cidade. O que se vê não são incidentes isolados, mas uma combinação perigosa de infraestrutura envelhecida, eventos climáticos intensificados e uma concessionária que parece lutar para conter os estragos.
O início de 2026 já ficou marcado por blecautes prolongados em áreas nobres e populares. Em Leme e Copacabana, um apagão de mais de 70 horas deixou residentes e comerciantes no escuro após o furto de 3,5 km de cabos da rede subterrânea. Para contornar o problema durante os reparos, a Light instalou 62 geradores a diesel nas ruas, uma solução paliativa que transformou o ruído e a poluição em um novo problema de saúde pública.
Quase simultaneamente, bairros da Zona Norte, como Méier, Tijuca e Cachambi, também mergulharam na escuridão durante o pico de calor. A concessionária alegou uma falha em uma subestação, mas em áreas como Cidade de Deus e Rio das Pedras, a justificativa foi outra: a sobrecarga da rede devido a um alto número de "gatos" ou ligações clandestinas. Essa dupla narrativa revela um sistema sob duplo estresse: a infraestrutura física decadente e o impacto do calor extremo sobre uma rede já sobrecarregada por perdas técnicas e não-técnicas.
Os eventos no Rio refletem uma realidade nacional mais ampla e alarmante. 43% das falhas nas linhas de transmissão de energia no Brasil entre 2014 e 2023 foram causadas por eventos climáticos extremos. Ventanias, chuvas torrenciais, queimadas e, sim, ondas de calor, pressionam uma malha elétrica que, em muitos trechos, já opera no limite.
Especialistas do Instituto Acende Brasil listam 25 tipos de impactos de eventos extremos em toda a cadeia do setor elétrico, desde a geração até a distribuição. No caso específico do calor, os mecanismos de colapso são claros:
Por trás disso, uma vulnerabilidade estrutural: o Brasil enfrenta uma seca persistente há dez anos em suas principais bacias hidrográficas. O sistema de previsão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), no entanto, ainda se baseia em séries históricas que não incorporam adequadamente os efeitos das mudanças climáticas, criando um "ponto cego" que superestima a capacidade futura dos reservatórios e subestima os riscos.
Diante das falhas, a resposta tem sido reativa e insuficiente. Após o apagão na Zona Sul, a Light iniciou a substituição de cabos antigos, um trabalho que deve durar 30 dias. No Grande Méier, uma obra de substituição de cabos subterrâneos que já deveriam ter sido trocados "há muito tempo" deve se estender até maio, período em que novos desligamentos são considerados possíveis.
Enquanto isso, a população sofre os efeitos. A fumaça dos geradores em Copacabana levou a queixas de ardência nos olhos, dor de cabeça e problemas respiratórios. Epidemiologistas alertam que a exposição prolongada à queima de diesel é carcinogênica, transformando uma solução técnica em um problema de saúde pública. A escuridão também avança sobre espaços públicos, como a orla do Leme, afetando a segurança e o lazer.
A insuficiência das ações da concessionária tem levado o Poder Público a intervir. A Defensoria Pública do Estado moveu uma ação que resultou em uma determinação judicial para o restabelecimento imediato da energia sob multa diária de R$ 200 mil. O prefeito Eduardo Paes classificou como "inadmissível" que as pessoas fiquem sem energia com o calor intenso, e o Procon Carioca foi acionado. A pressão social e legal, portanto, tornou-se parte indispensável do processo de cobrança por um serviço essencial.
O verão carioca escancara uma crise multifacetada. Não se trata apenas de um ou outro cabo furtado ou de dias excepcionalmente quentes. É o retrato de um sistema de distribuição envelhecido e mal conservado, que se mostra cada vez mais vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, como as ondas de calor mais intensas e frequentes. A combinação de infraestrutura obsoleta, aumento da demanda por refrigeração, perdas com ligações clandestinas e um modelo de gestão que parece incapaz de fazer manutenção preventiva em escala necessária cria uma tempestade perfeita.
As soluções paliativas, como geradores barulhentos e poluentes, são sintomáticas da falta de um planejamento robusto e de investimentos consistentes em resiliência. Enquanto o setor elétrico nacional debate a necessidade de redes mais inteligentes, maior monitoramento e critérios que considerem as mudanças climáticas, o carioca fica à mercê do próximo pico de temperatura e do próximo componente da rede que vai falhar. A luz no fim do túnel, para muitos, continua sendo literalmente intermitente.
Com informações de: Agência Brasil, Diário do Rio, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, Simple Energy ■