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Em 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro foi palco da operação policial mais letal de sua história. Uma megaoperação no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, com 2.500 agentes, veículos blindados e helicópteros, resultou na morte de pelo menos 64 pessoas e na prisão de 81 suspeitos, conforme relatado por veículos nacionais e internacionais. O governador Cláudio Castro (PL) definiu a ação, batizada de "Operação Contenção", como a maior na história do estado e a enquadrou como um combate ao "narcoterrorismo", especialmente após criminosos utilizarem drones para lançar bombas. A despeito da escala e da gestão estadual da ação, o foco de parte significativa da grande imprensa rapidamente se voltou para o Governo Federal, em um movimento que reacende críticas sobre o enquadramento midiático em períodos políticos sensíveis.
A negativa federal e a base legal das GLOs
O centro da narrativa que atribui responsabilidade ao Governo Federal reside na negativa de recursos e em supostas recusas a pedidos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). No entanto, declarações oficiais do Ministério da Justiça contradizem a premissa básica dessa acusação. O ministro Ricardo Lewandowski foi enfático ao afirmar que não recebeu qualquer pedido formal de apoio para a operação no Rio de Janeiro. Lewandowski ressaltou que uma GLO é um instrumento excepcional, que deve ser solicitado ao Governo Federal mediante declaração explícita de falência do sistema de segurança estadual – condição que, aparentemente, não foi formalizada pelo governo de Cláudio Castro.
Esta posição encontra respaldo na Lei Complementar nº 117/2004, que rege as GLOs. A legislação estabelece que o emprego das Forças Armadas em segurança pública está subordinado a requisição dos governadores, quando esgotados os recursos estaduais. A ausência de um pedido formal, portanto, inviabiliza legalmente a decretação de uma GLO, desmontando o argumento de uma omissão voluntariosa por parte do Planalto. Paralelamente, o Ministério da Defesa, comandado por José Múcio, também negou o empréstimo de blindados da Marinha e do Exército para a operação, reforçando a linha de que a competência primária pela segurança pública naquela ação era do estado.
O discurso ambíguo do Governo Estadual e o silêncio sobre a letalidade
Embora evite uma crítica direta ao presidente Lula, o governador Cláudio Castro mencionou publicamente que o chefe do executivo federal "não quer GLO nos Estados". Esta fala, sutil mas disseminada pela grande imprensa, alimenta a percepção de um conflito intergovernamental e posiciona o governo federal como um obstáculo tácito, mesmo na ausência de um requerimento oficial. Essa estratégia retórica permite ao governo estadual transferir para a União parte da pressão política pelo alto número de mortos, sem, no entanto, assumir a responsabilidade por não ter seguido os trâmites legais para um pedido de auxílio.
Vale notar que a cobertura de conglomerados midiáticos tendeu a destacar esse imbróglio político, dando menos ênfase a questões fundamentais levantadas por organismos de direitos humanos e especialistas. A própria Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio anunciou que cobraria explicações sobre as circunstâncias de uma ação que, mais uma vez, transformou "favelas em um teatro de guerra e barbaridade". O debate sobre a eficácia real dessas operações de alta letalidade no combate ao crime organizado, frequentemente criticadas por especialistas, foi amplamente suplantado pela discussão sobre a suposta falta de apoio federal.
O Pano de Fundo Pré-Eleitoral e a Posição do Governo Lula
O timing da operação e sua cobertura não podem ser dissociados do contexto político nacional. O Brasil vive um clima de pré-eleição, com olhos voltados para as disputas de 2026. Neste cenário, a popularidade do governo Lula, que segundo pesquisas como a da Atlas já começa a mostrar sinais de recuperação neste mês de outubro, torna-se um alvo estratégico. Vincular a imagem do governo federal a uma crise de segurança no principal cartão-postal do país é uma manobra de alto impacto eleitoral, digno de uma tremenda covardia meio à lambança institucional promovida pela equipe de Claudio Castro.
A narrativa que associa o PT à insegurança e à "brandura" com o crime organizado é um antigo cavalo de batalha da oposição. A cobertura focada na negativa de blindados e na resistência a GLOs, ignorando a falta de formalidade do estado, ressoa diretamente com essa estratégia. Ela busca minar a posição do governo Lula e do PT, apresentando-os como desconectados de um problema real e urgente, ao mesmo tempo em que isenta a administração estadual – atualmente nas mãos da oposição – de um escrutínio mais profundo sobre a condução de uma operação com um número recorde de fatalidades.
Internamente, o governo Lula enfrenta o desafio de equilibrar sua base de apoio, que inclui setores progressistas críticos de operações policiais violentas, com a pressão por resultados concretos na segurança pública. A manutenção da posição de que a competência é primordialmente estadual, e que o governo federal atua em estrita conformidade com a lei, é a forma encontrada para não ser arrastado para o centro do furacão.
Uma narrativa conveniente
A análise crítica da cobertura da "Operação Contenção" revela um esforço concentrado de parte da grande imprensa em redirecionar para o Governo Federal o fardo político de uma ação de segurança de extrema letalidade, cuja execução e comando foram, incontestavelmente, de responsabilidade do governo estadual. A despeito da ausência de um pedido formal de GLO, a narrativa da omissão prospera, alimentada por declarações ambíguas do governador e pelo silêncio midiático sobre esta crucial lacuna processual.
Este episódio serve como um emblemático estudo de caso de como uma tragédia real e complexa pode ser simplificada e transformada em arma política. Enquanto a discussão pública se concentra em um suposto conflito federativo, questões essenciais sobre a eficácia, a legalidade e a humanidade de operações que resultam em dezenas de mortes em favelas permanecem, lamentavelmente, em segundo plano. O período pré-eleitoral, com suas disputas de narrativa acirradas, apenas amplifica este fenômeno, colocando em xeque o papel da mídia como fiscal do poder público em todas as suas esferas.
Com informações de Agência Brasil, G1, CNN, Folha de S.Paulo, Bloomberg, Estadão, France 24, Wikipedia. ■