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O monopólio holandês em nanotecnologia: um novo capítulo
Empresa holandesa controla cerca de 95% do mercado de litografia para semicondutores, tornando-se peça central em uma guerra tecnológica e geopolítica global que, agora, envolve embargos do Governo na disputa
Analise
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■   Bernardo Cahue, 13/10/2025

O cerne do embargo do governo holandês à Nexperia, uma fabricante de semicondutores de propriedade chinesa com sede na Holanda, motivada por alegadas preocupações com a segurança econômica e possíveis transferências de tecnologia crucial para o país asiático, trouxe um novo capítulo de uma história de mais de 40 anos de avanços na tecnologia e, não diferente, monopólio holandês na fabricação litográfica.

Nos bastidores da economia digital, uma empresa holandesa com um nome pouco conhecido, a ASML, exerce um controle sem precedentes sobre o futuro da nanotecnologia. Especializada em máquinas de litografia, uma etapa crucial na fabricação de chips, a ASML detém um quase monopólio global, sendo a única no mundo capaz de produzir os sistemas de ultravioleta extremo (EUV) necessários para os semicondutores mais avançados que alimentam a inteligência artificial e a computação de ponta. Esta posição dominante, que responde por aproximadamente 95% do mercado de litografia, transformou a companhia em um ativo estratégico, sujeito a pressões geopolíticas e no centro do que se convencionou chamar de "guerra dos chips".

O domínio da ASML não é fruto do acaso, mas o resultado de décadas de investimento e uma aposta tecnológica de alto risco. A empresa foi fundada em 1984 como uma parceria estratégivca com a Phillips e tornou-se independente em 1988, crescendo até superar concorrentes como a Canon e a Nikon. O momento decisivo, no entanto, foi o desenvolvimento da litografia por ultravioleta extremo (EUV), uma tecnologia que a empresa perseguiu por mais de 20 anos antes de alcançar a comercialização bem-sucedida. A complexidade é tanta que a Canon e a Nikon desistiram de desenvolver sua própria tecnologia EUV, enquanto a chinesa SMEE ainda tenta replicar a façanha A aquisição estratégica de empresas que dominavam componentes críticos, como a Cymer (fontes de luz) em 2013, foi vital para consolidar seu controle sobre toda a cadeia de produção.

O cerne do monopólio reside em uma máquina que é um prodígio da engenharia. Os sistemas EUV da ASML:

  • Utilizam um laser de alta potência disparado 50.000 vezes por segundo contra gotículas de estanho para gerar luz ultravioleta extrema.
  • Operam em vácuo, pois a luz EUV é absorvida pelo ar, e utilizam espelhos tão perfeitos que, se ampliados ao tamanho da Alemanha, suas imperfeições não teriam mais que um milímetro de altura.
  • Custam até US$ 400 milhões por unidade, pesam 180 toneladas e requerem três aviões Boeing 747 para serem transportados.

Esta posição monopolística concedeu à ASML um poder de barganha extraordinário e resultados financeiros robustos. No primeiro trimestre de 2025, a empresa reportou uma margem bruta saudável de 54%, reflexo de seu significativo poder de fixação de preços. Gigantes como TSMC, Samsung e Intel, que fabricam chips para Apple, Nvidia e quase toda a indústria de tecnologia, dependem inteiramente dessas máquinas para seus produtos mais avançados.

A dependência global em uma única empresa holandesa tornou a ASML um ator central na disputa tecnológica entre EUA e China. Sob pressão norte-americana, o governo holandês revogou licenças de exportação da ASML para a China, impedindo que o país acesse a tecnologia de ponta necessária para avançar em sua indústria de chips. Em 2024, o primeiro-ministro Dick Schoof afirmou que o governo ponderaria os interesses econômicos da ASML em novas decisões sobre restrições, destacando a tensão entre a geopolítica e os negócios. A China, por sua vez, tornou-se o maior mercado individual da ASML em 2024, com vendas de 10,2 bilhões de euros, majoritariamente de equipamentos DUV (menos avançados), mostrando sua tentativa de manter o acesso à tecnologia ainda disponível.

Apesar dos esforços de rivais como a Canon, que aposta em uma tecnologia alternativa de nanoimpressão, e dos bilhões investidos pela China para desenvolver fabricantes domésticos, a liderança da ASML parece inabalável no curto e médio prazo. A empresa já está na próxima fronteira, com o envio em 2025 de suas primeiras máquinas de Alto-NA, uma geração ainda mais avançada de EUV. Enquanto isso, a "cobiça" por trás de seu monopólio tecnológico continua a alimentar uma das disputas industriais e geopolíticas mais decisivas do nosso tempo, na qual a Holanda, por meio de uma única empresa, controla o fluxo de uma das commodities mais vitais do século XXI e, por medidas extremas, tenta evitar a exportação e compartilhamentos dessa tecnologia.

Com informações de: Pplware, Terra, O Cafezinho, eToro, Bez-kabli, Olhar Digital, Wikipedia, DCF Modeling. ■

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