Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Anistia a golpistas: O Congresso Nacional entre a inconstitucionalidade e o jogo político
Medida aprovada sob urgência na Câmara é classificada como "pauta bomba" e pode beneficiar Bolsonaro, enquanto adia votações cruciais para o país
Analise
Foto: https://imagens.ebc.com.br/hpWreYcLcuuYIML2_l5j88AQwc0=/1170x700/smart/https://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/default/files/thumbnails/image/2025/09/17/votacao_da_urgencia_da_anistia_-_bruno_spada_-_camara_dos_deputados.jpg?itok=c105sZ0T
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 18/09/2025

Em um movimento classificado por juristas e analistas como um atentado à democracia brasileira, a Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (17/09/2025) o regime de urgência para um projeto de lei que prevê anistia a participantes de atos golpistas desde 2022. Com 311 votos a favor e 163 contra, a medida acelerará a tramitação do texto, que poderá ser votado diretamente no plenário, sem passar por comissões técnicas.

A manobra, articulada por líderes da oposição e pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), utiliza como base um projeto do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), que prevê anistia ampla a "todos que participaram de manifestações com motivação política e/ou eleitoral" entre outubro de 2022 e a entrada em vigor da lei. No entanto, o texto final ainda não está definido, e discute-se se incluirá ou não o ex-presidente Jair Bolsonaro, recentemente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe.

Uma "Pauta Bomba" com Objetivos Escusos

A classificação de "pauta bomba" não é exagerada. A votação de urgência atrasa deliberadamente outras matérias prioritárias, como a taxação de grandes fortunas, bancos e apostas (BBB), essencial para fechar as contas da reforma tributária já aprovada. Enquanto o Congresso se debruça sobre um projeto que perdoa crimes graves, deixa de lado discussões econômicas urgentes que impactam diretamente a vida da população e o equilíbrio fiscal do país.

Além disso, a medida é vista como uma tentativa desesperada de salvar a candidatura de Bolsonaro em 2026. Com a condenação pelo STF, o ex-presidente está inelegível até 2030, e uma anistia poderia reverter essa situação. Líderes da oposição, como o deputado Gustavo Gayer (PL-GO), já comemoraram a aprovação da urgência como um "marco na história do país", enquanto o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) prometeu que a anistia a Bolsonaro seria seu "primeiro ato" se eleito.

Inconstitucionalidade e Risco à Democracia

Juristas e especialistas alertam: a anistia a crimes contra a democracia é inconstitucional. A Constituição Federal, em seu artigo 5º, declara que crimes como tortura, terrorismo e hediondos são inafiançáveis e imprescritíveis. Por coerência interna, essa vedação se estende aos crimes contra o Estado Democrático de Direito, como definido pela Lei 14.197/2021.

Eloísa Machado de Almeida, doutora em direito pela USP, é enfática: "Por coerência interna da Constituição, tais crimes seriam impassíveis de anistia" [citation:4]. A professora Tânia Maria de Oliveira, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, acrescenta que o Congresso "está claramente fazendo uma invasão de uma competência que é do Supremo", referindo-se ao fato de que os processos correm no STF.

O ministro Dias Toffoli, ao anular a anistia concedida a Daniel Silveira por Bolsonaro em 2022, já havia afirmado: "Que interesse público haveria em perdoar aquele que foi devidamente condenado por atentar contra a própria existência do estado democrático?".

Pacificação ou Impunidade?

Os defensores do projeto, como o relator inicial Rodrigo Valadares (União-SE) e o presidente Hugo Motta, argumentam que a medida busca a "pacificação" do país. No entanto, essa narrativa é duramente criticada por especialistas e parlamentares da base governista.

O cientista político João Feres Júnior (Iesp-Uerj) adverte: "A libertação dos radicais presos não vai causar qualquer pacificação. Muito pelo contrário, vai sinalizar que é possível atacar as instituições de maneira violenta e sair incólume". O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi mais direto: "É um dia triste para a democracia brasileira. Em um momento em que as instituições deveriam ser fortes, vimos o contrário ali dentro, uma rendição a esses golpistas".

Consequências para o Brasil

A aprovação desta anistia teria impactos profundos e negativos:

  • Enfraquecimento da Justiça: O Congresso estaria usurpando uma função do Judiciário, criando um perigoso precedente de interferência política em decisões judiciais.
  • Incentivo à Violência Política: A impunidade para crimes graves contra a democracia pode encorajar novos ataques e golpes no futuro.
  • Paralisia Legislativa: A prioridade dada a esta "pauta bomba" atrasa votações cruciais para a economia e o desenvolvimento social, como a regulamentação da reforma tributária e a taxação de setores privilegiados - bancos, bettings e big techs (fintechs).
  • Divisão Social: Pesquisa Datafolha já mostrou que 54% dos brasileiros rejeitam a anistia a Bolsonaro. A medida aprofundaria a polarização e desrespeitaria a vontade da maioria.

O governo Lula já sinalizou que vetará a proposta se aprovada, mas a oposição pode tentar derrubar o veto. A batalha, portanto, ainda não terminou, e a sociedade deve permanecer vigilante.

Um Ataque ao Brasil

A votação de urgência para anistiar golpistas é mais do que um erro político; é um atentado ao povo brasileiro e aos princípios democráticos. Ela privilegia interesses eleitoreiros de uma elite insatisfeita com os resultados das urnas em detrimento da segurança jurídica, da soberania do Judiciário e do bem-estar coletivo. Enquanto o Congresso perde tempo com manobras perigosas, o Brasil espera por soluções reais para seus problemas.

Com informações de: G1, O Globo, Agência Brasil, Câmara dos Deputados, BBC, CNN Brasil, Gazeta do Povo

Mais Notícias